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Esporte

Esporte vira ativo financeiro e movimenta recorde de US$ 3,69 bilhões em aquisições na Ásia

28/07/2026 • 21:13

Esporte vira ativo financeiro e movimenta recorde de US$ 3,69 bilhões em aquisições na Ásia
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Investidores substituem contratos tradicionais de patrocínio pela compra de participações em clubes, ligas, franquias e empresas de tecnologia esportiva

O esporte está deixando de ser apenas um espaço de exposição para marcas e grandes empresários. Em uma transformação que ganha força principalmente na Ásia, bilionários, fundos de investimento e family offices passaram a buscar participações diretas em clubes, ligas e empresas ligadas à indústria esportiva.

As operações de fusões e aquisições relacionadas ao esporte na região Ásia-Pacífico movimentaram US$ 3,69 bilhões entre o início de 2026 e o dia 13 de julho. O valor é o maior registrado desde o início da série histórica da LSEG, em 1980, e representa mais de 12 vezes o volume alcançado no mesmo período de 2025.

O avanço asiático se destaca ainda mais quando comparado ao cenário internacional. Globalmente, as transações esportivas permaneceram praticamente estáveis, com movimentação de aproximadamente US$ 8,34 bilhões no mesmo intervalo. Isso significa que a Ásia-Pacífico respondeu por cerca de 44% do valor mundial negociado no setor durante o período.

Mais do que uma sequência isolada de aquisições, os números revelam uma mudança na forma como investidores analisam o mercado esportivo. Clubes e ligas passaram a ser avaliados como plataformas de mídia, entretenimento, propriedade intelectual, relacionamento com consumidores e distribuição de conteúdo.

Do patrocínio à participação acionária

Durante décadas, a relação entre grandes fortunas e o esporte ocorreu principalmente por meio de contratos de patrocínio, compra de espaços publicitários e apoio a competições ou projetos sociais.

Nesse modelo, uma empresa pagava para associar sua marca a um clube, atleta ou torneio durante determinado período. Ao final do contrato, a relação poderia ser renovada ou encerrada, sem que o patrocinador tivesse participação direta na valorização do ativo esportivo.

A nova estratégia é diferente. Em vez de apenas pagar para exibir uma marca no uniforme, no estádio ou nas transmissões, investidores estão comprando partes das próprias organizações.

Isso permite participar de uma eventual valorização das franquias, receber dividendos quando houver distribuição de lucros e ter acesso a receitas provenientes de direitos de mídia, patrocínios, bilheteria, licenciamento de produtos, comércio eletrônico, dados e experiências oferecidas aos torcedores.

De acordo com executivos e consultores financeiros ouvidos pela Reuters, famílias ricas e investidores institucionais asiáticos procuram principalmente participações minoritárias. A compra integral de equipes ainda é relativamente rara, tanto pelo preço elevado quanto pelas restrições impostas por ligas, federações e estruturas de propriedade.

A participação minoritária oferece uma porta de entrada menos arriscada. O investidor obtém exposição ao crescimento da indústria sem precisar assumir sozinho toda a operação esportiva.

Cricket impulsiona grandes negócios na Índia

A Indian Premier League, a IPL, tornou-se um dos principais exemplos dessa transformação. A competição de cricket reúne equipes que funcionam como franquias e concentra algumas das maiores audiências esportivas do continente.

Em março de 2026, a United Spirits, controlada na Índia pelo grupo Diageo, concordou em vender o Royal Challengers Bengaluru por cerca de US$ 1,8 bilhão. O grupo comprador inclui o family office Bolt Ventures, ligado ao bilionário David Blitzer, e a gestora de ativos Blackstone.

Em outra operação, anunciada em maio, um consórcio liderado pelos empresários Lakshmi Mittal e Adar Poonawalla concordou em adquirir uma participação de 93% no Rajasthan Royals, considerando uma avaliação aproximada de US$ 1,65 bilhão para a franquia.

A família Goenka também avalia vender entre 5% e 10% do Lucknow Super Giants. A eventual transação poderá atribuir ao time uma avaliação entre US$ 1,8 bilhão e US$ 2 bilhões. Até o momento da divulgação das informações, entretanto, os controladores ainda não haviam decidido se prosseguiriam com a operação.

As avaliações atuais mostram como o cricket indiano se transformou em um grande negócio. Quando a IPL foi criada, em 2008, o Royal Challengers Bengaluru foi adquirido por aproximadamente US$ 111,6 milhões, enquanto o Rajasthan Royals custou cerca de US$ 67 milhões.

Em 2026, as duas franquias passaram a ser negociadas por valores bilionários. A expansão está ligada à popularidade da competição, à escassez de equipes disponíveis e, principalmente, ao crescimento das receitas comerciais.

Os direitos de transmissão da IPL para o ciclo entre 2023 e 2027 foram negociados por US$ 6,4 bilhões. O valor oferece maior previsibilidade financeira às franquias e ajuda a sustentar avaliações mais elevadas.

Direitos de mídia tornam o esporte mais atraente

O aumento dos investimentos em esportes está diretamente relacionado à disputa pelos direitos de transmissão. Eventos ao vivo continuam capazes de reunir grandes audiências simultâneas, algo cada vez mais raro em um mercado de entretenimento fragmentado entre canais de televisão, plataformas digitais e serviços de streaming.

Essa capacidade permite que ligas e clubes negociem contratos de longo prazo com emissoras e empresas de tecnologia. Para os investidores, contratos extensos proporcionam maior visibilidade sobre as receitas futuras e podem reduzir a volatilidade da operação.

O potencial asiático também está na dimensão do público. Após 41 partidas da Copa do Mundo de 2026, as transmissões pelos canais da CCTV haviam alcançado 205 milhões de espectadores únicos na China. No Japão, a partida entre a seleção japonesa e a Tunísia registrou audiência de 39 milhões de pessoas na Nippon TV, segundo informações citadas pela Reuters com base em dados da FIFA.

Quanto maior a audiência, maior tende a ser o interesse de emissoras, patrocinadores, plataformas de streaming e anunciantes. Parte desse valor é transferida para as ligas e, posteriormente, para clubes e franquias.

As equipes deixam, portanto, de ser avaliadas apenas por títulos, jogadores ou resultados da temporada. Elas passam a ser vistas como proprietárias de conteúdo escasso, com comunidades altamente envolvidas e capacidade recorrente de atrair atenção.

Por que investidores consideram o esporte resistente à inteligência artificial?

Outro argumento utilizado no mercado financeiro é que o esporte seria relativamente resistente às transformações provocadas pela inteligência artificial.

Ferramentas de IA podem gerar textos, imagens, músicas e vídeos, alterando modelos tradicionais da indústria de mídia e entretenimento. Uma competição esportiva ao vivo, porém, depende de atletas reais, resultados imprevisíveis e rivalidades construídas durante anos.

A tecnologia pode modificar a produção e a distribuição das transmissões, mas não consegue substituir completamente a experiência de acompanhar uma partida cujo resultado ainda não é conhecido.

Por essa razão, alguns investidores descrevem o esporte como um negócio resistente ou até mesmo “à prova de IA”. Também existe a expectativa de que seu desempenho financeiro apresente menor correlação com determinados ativos tradicionais, ajudando na diversificação de portfólios.

A combinação entre escassez, fidelidade dos torcedores, alcance internacional e receitas de mídia contribui para esse interesse. Diferentemente de uma empresa comum, um clube tradicional dificilmente será substituído por um concorrente recém-criado. Sua história, sua identidade e sua base de fãs não podem ser reproduzidas rapidamente.

Clubes se transformam em plataformas de propriedade intelectual

O valor de um ativo esportivo já não está limitado ao desempenho dentro de campo. Uma franquia pode gerar receitas por meio de séries documentais, conteúdos para redes sociais, produtos licenciados, academias, escolas esportivas, jogos eletrônicos, programas de fidelidade e experiências turísticas.

Empresas especializadas também passaram a tratar equipes como plataformas de propriedade intelectual. Um clube pode distribuir sua marca internacionalmente, desenvolver produtos em parceria com empresas de moda e entretenimento e transformar partidas em eventos consumidos em diferentes formatos.

A BDA Partners observa que franquias esportivas asiáticas estão sendo analisadas como negócios de mídia e entretenimento com diferentes camadas de monetização. Além das transmissões tradicionais e do streaming, entram nessa conta os vídeos curtos, conteúdos sociais, comércio digital, dados e relacionamento direto com os torcedores.

Essa visão explica por que os compradores não procuram somente clubes. Os investimentos também envolvem ligas, empresas de tecnologia, plataformas de dados, negócios de venda de ingressos e companhias responsáveis pela distribuição de conteúdo.

Entre 2019 e 2024, empresas de private equity investiram mais de US$ 55 bilhões em ativos esportivos ao redor do mundo. O capital alcançou franquias, direitos de mídia, estádios, plataformas tecnológicas e negócios de engajamento de torcedores. Atualmente, mais de 74 equipes profissionais norte-americanas possuem algum nível de participação de fundos de private equity.

Fundos e family offices buscam ativos escassos

A compra de clubes por bilionários não é exatamente uma novidade. Durante muitos anos, equipes tradicionais foram adquiridas por empresários interessados em prestígio, influência e proximidade com o esporte.

O que está mudando é a racionalidade financeira por trás das operações.

Os investidores atuais buscam governança, oportunidades de expansão, valorização patrimonial e possíveis alternativas de saída. Em vez de uma aquisição motivada exclusivamente por paixão ou status, os negócios passam por análises de receita, endividamento, riscos regulatórios, capacidade de crescimento e retorno esperado.

Family offices, estruturas criadas para administrar o patrimônio de famílias muito ricas, encontram no esporte uma combinação incomum de investimento financeiro e ativo de prestígio. Já os fundos podem oferecer capital para expansão internacional, construção de arenas, contratação de executivos e desenvolvimento de novas fontes de receita.

A indústria também permite montar portfólios com propriedades complementares. Um grupo pode possuir participações em clubes de países diferentes, empresas de mídia, plataformas de dados e negócios de entretenimento esportivo.

Essa integração cria oportunidades comerciais entre os ativos, mas também levanta questões sobre concentração de poder e possíveis conflitos de interesse.

Nem todo investimento esportivo oferece o mesmo retorno

Apesar do crescimento das aquisições, especialistas alertam que não é possível tratar todos os negócios esportivos como investimentos seguros.

Clubes podem acumular dívidas, perder receitas após resultados ruins ou sofrer com problemas de gestão. Ligas novas ainda precisam provar que conseguem manter audiência, patrocinadores e contratos de transmissão durante vários anos.

Também existem riscos relacionados a lesões de atletas, mudanças regulatórias, crises de reputação, custos crescentes com salários e dependência excessiva de poucos contratos comerciais.

Mark Affolter, executivo da Ares Management, advertiu que existe uma espécie de “aura positiva” envolvendo todo o setor, embora os riscos variem consideravelmente entre negócios consolidados e projetos emergentes. Para o fundo soberano de Singapura Temasek, por exemplo, o esporte continua sendo um tema em desenvolvimento, e não uma estratégia central de investimento.

O crescimento também aumenta a pressão por uma gestão profissional. Torcedores podem aceitar que seus clubes busquem novas receitas, mas costumam reagir quando percebem que decisões financeiras colocam em risco a identidade, a história ou os resultados esportivos das equipes.

O que o mercado brasileiro pode aprender

Para o mercado esportivo brasileiro, a tendência internacional mostra que a atração de capital depende de mais do que audiência e tradição.

Clubes que pretendem receber fundos de investimento precisam apresentar demonstrações financeiras confiáveis, estruturas claras de governança, proteção aos acionistas e estratégias comerciais capazes de gerar receitas além da venda de jogadores.

Participações minoritárias podem representar uma alternativa para organizações que precisam de recursos, mas não desejam transferir imediatamente o controle integral. Também podem ser utilizadas para financiar arenas, categorias de base, tecnologia, internacionalização e produção de conteúdo.

Ao mesmo tempo, clubes e ligas devem evitar a entrada de investidores interessados apenas em valorização rápida. O capital precisa estar acompanhado de planejamento, conhecimento do setor e compromisso com a sustentabilidade esportiva.

A mudança observada na Ásia deixa uma mensagem clara: patrocinar oferece visibilidade, mas possuir uma participação permite capturar parte do valor gerado pelo crescimento do esporte.

Com audiências ao vivo, direitos de transmissão, torcedores fiéis e marcas difíceis de reproduzir, clubes e ligas estão sendo incorporados aos portfólios de fundos de investimento, family offices e grandes empresários. O esporte não perdeu sua dimensão emocional, mas passou definitivamente a ser tratado também como uma classe de ativos.