Europa

Europa perde terreno na corrida pela inteligência artificial enquanto crise de energia freia data centers

19/05/2026 • 10:26

A Europa enfrenta uma combinação adversa que ameaça comprometer sua competitividade na corrida global pela inteligência artificial: os altos custos de energia estão freando a construção de novos data centers no continente, enquanto a União Europeia se prepara para reduzir suas projeções de crescimento econômico diante de um cenário que especialistas já descrevem como “choque estagflacionário”.

A corrida pela IA se transformou, na prática, em uma maratona de energia. E a Europa, que já enfrenta preços de eletricidade historicamente elevados em comparação com os Estados Unidos e a Ásia, está ficando para trás nessa disputa, segundo análise do Portal Tela publicada com base em dados recentes do setor.

Data centers: a infraestrutura que a Europa não consegue construir rápido o suficiente

Treinar e operar os grandes modelos de inteligência artificial exige quantidades imensuráveis de energia elétrica. Os data centers que abrigam a infraestrutura de IA consomem em alguns casos mais energia do que cidades inteiras, e a localização desses centros é determinada em boa parte pelo custo e pela disponibilidade de energia.

Nos Estados Unidos, empresas como Microsoft, Google, Amazon e Meta têm investido centenas de bilhões de dólares na expansão de sua infraestrutura de data centers, frequentemente em regiões com energia barata, como o Sudeste americano, o Texas e estados com alto potencial de energia renovável.

Na Europa, os custos elevados de energia, agravados pelos conflitos geopolíticos que afetaram o fornecimento de gás natural ao continente, tornam essa equação muito menos favorável. O resultado é que os grandes projetos de infraestrutura de IA tendem a se concentrar fora do continente europeu.

UE enfrenta estagflação e revisa projeções de crescimento

O cenário macroeconômico europeu adiciona outra camada de complexidade. Um comissário europeu afirmou que o bloco está vivendo um “choque estagflacionário”, com pressão simultânea sobre os preços da energia e desaceleração do crescimento econômico.

A Comissão Europeia prepara-se para anunciar cortes nas projeções de crescimento do bloco, ao mesmo tempo em que a inflação segue acima das metas em vários países membros. A combinação de inflação persistente e crescimento fraco é a definição de estagflação, um cenário que limita o espaço de manobra tanto para a política monetária quanto para os estímulos fiscais.

Draghi: Europa precisa ser mais assertiva com os EUA

O ex-presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, que recebeu o Prêmio Carlos Magno 2026 em Aachen, na Alemanha, aproveitou o discurso para afirmar que a União Europeia precisa adotar uma postura mais assertiva em relação aos Estados Unidos.

Draghi, que elaborou um relatório encomendado pela Comissão Europeia sobre a competitividade do bloco, tem defendido que a Europa precisa de uma estratégia industrial ambiciosa, com investimentos maciços em tecnologia, energia limpa e defesa, para não perder terreno definitivamente para os americanos e os chineses nas indústrias do futuro.

ACS levanta 2,17 bilhões de euros em aumento de capital

No campo corporativo europeu, a construtora espanhola ACS realizou um aumento de capital de 2% e vendeu ações no valor de 2,17 bilhões de euros. A operação contou com a participação de acionistas relevantes como Pérez e o grupo Criteria, que sinalizaram disposição para reforçar suas posições na companhia.

O movimento da ACS é mais um sinal de que, apesar das dificuldades macroeconômicas, grandes empresas europeias do setor de infraestrutura seguem buscando capital para financiar projetos de longo prazo, especialmente os relacionados à transição energética e à modernização de infraestruturas urbanas.

O que a crise europeia significa para o Brasil e para os negócios globais

A desaceleração da Europa tem implicações para o Brasil em diversas dimensões. O bloco europeu é um dos principais destinos das exportações brasileiras, especialmente de commodities agrícolas, minério de ferro e produtos industriais. Uma Europa em estagflação tende a importar menos e a pressionar os preços das matérias-primas.

Na dimensão dos negócios, a dificuldade europeia com a inteligência artificial e a infraestrutura de dados abre espaço para que outros polos tecnológicos, incluindo o Brasil, atraiam investimentos de empresas que buscam alternativas à Europa para expansão de seus negócios digitais na América Latina.

Para investidores brasileiros expostos a ativos europeus, o momento pede atenção redobrada à evolução do cenário macroeconômico do bloco e à política do Banco Central Europeu, cujas decisões de juros influenciam diretamente o comportamento dos ativos ao redor do mundo.