LLYC alerta para o risco reputacional do “Rainbow Ghosting” e o recuo do apoio público à diversidade no ecossistema digital

Estudo da LLYC aponta recuo de um terço no compromisso corporativo ativo e queda trimestral de 10% na cobertura da imprensa sobre diversidade nos últimos três anos
O apoio público à diversidade parou de avançar e, em muitos casos, começou a desaparecer das telas e das estratégias institucionais. Esse fenômeno de recuo, apelidado de Rainbow Ghosting, foi mapeado no novo relatório internacional da LLYC, empresa global de consultoria em marketing e assuntos corporativos, lançado para marcar o mês do Orgulho LGBTQ+. O estudo revela um cenário preocupante: nos últimos três anos, a cobertura da imprensa sobre Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI) encolheu cerca de 10% a cada trimestre, enquanto o volume de conversas na rede social X caiu pela metade. Esse esvaziamento do debate público abriu espaço para a hostilidade, fazendo com que o discurso de ódio digital contra a comunidade disparasse 38% globalmente.
No Brasil, a realidade acompanha essa tendência alarmante, registrando um aumento de 26,8% no peso de conteúdos violentos voltados a essa população. Para chegar a esses resultados, a consultoria utilizou ferramentas de Big Data e inteligência artificial para analisar 15,1 milhões de notícias, 202 milhões de publicações em redes sociais e centenas de imagens geradas por algoritmos em 12 países, incluindo o Brasil. O diagnóstico mostra que o compromisso de marcas e instituições, que antes parecia contínuo, tornou-se sazonal, concentrando-se quase exclusivamente no mês de junho e deixando a pauta em silêncio no restante do ano.
O perigo do silêncio e os vieses dos algoritmos
A consequência mais grave desse recuo vai além da ausência de logos coloridos nas redes sociais. Ao reduzir o volume de informações positivas e consistentes sobre a pauta LGBTQ+, o ecossistema corporativo e midiático está deixando um vácuo que agora é alimentado por algoritmos de IA generativa. O estudo testou os principais sistemas do mercado e constatou que as ferramentas já associam conceitos de autonomia, independência e sucesso profissional 140% mais a perfis cisgêneros e heterossexuais. Em contrapartida, as respostas direcionadas a perfis LGBTQ+ são fortemente vinculadas a narrativas de vulnerabilidade, medo e rejeição.
Para Carmen Gardier, Diretora Sênior e responsável pelo Comitê de Diversidade da LLYC Brasil, esta realidade é fruto do esvaziamento do debate público. “A escassez de notícias estruturadas sobre diversidade gera uma consequência colateral severa: a Inteligência Artificial está herdando esse vácuo. Esse silêncio, somado à ausência de dados de fontes responsáveis e contínuas para processar, faz com que os algoritmos de linguagem passem a aprender apenas com o que resta disponível na internet”, afirma.
O resultado, segundo a porta-voz, é um retrocesso tecnológico e social: a IA começa a associar identidades LGBTQ+ com maior intensidade a narrativas de vulnerabilidade e medo, reservando atributos de autonomia e sucesso quase exclusivamente a perfis cisgêneros.
Além do viés textual, o preconceito algorítmico se reflete na estética. Cerca de 70% das imagens neutras geradas por IA para perfis LGBTQ+ forçam a barra com estereótipos ou símbolos explícitos, como bandeiras, evidenciando a dificuldade das ferramentas em retratar a comunidade de forma natural em posições de liderança ou no cotidiano corporativo.
A responsabilidade das marcas além do mês de junho
O relatório aponta que o recuo estratégico ou a “neutralidade” adotada por empresas para evitar ruídos políticos e sociais acabou virando uma armadilha reputacional e cultural. Quando grandes corporações, incluindo uma queda notável de um terço nas empresas da Fortune 500 com políticas DEI visíveis desde 2023, diminuem seus contrapesos institucionais, o ambiente digital se torna ainda mais hostil.
No ambiente do X, três em cada cinco mensagens sobre o coletivo hoje constituem um ataque direto, muitas vezes camuflado sob discursos de “defesa da família tradicional” ou “proteção à infância”.
Para reverter essa tendência e garantir uma sociedade mais justa, a LLYC propõe que as organizações adotem uma postura de responsabilidade algorítmica e consistência histórica, auditando suas próprias ferramentas tecnológicas e mantendo o posicionamento ativo ao longo de todo o ano, e não apenas no calendário festivo.
“Sob a perspectiva da reputação, e considerando o espaço e a maior proximidade que as empresas conquistaram com a sociedade, gera preocupação o fenômeno do Rainbow Ghosting. A expressão funciona como uma metáfora perfeita para o recuo estratégico ou a sazonalidade extremada de marcas e líderes que preferem ‘deixar a pauta no vácuo’ para evitar ruídos”, explica Carmen.
Ainda, segundo a executiva, manter um posicionamento institucional consistente, responsável e, acima de tudo, contínuo é a única forma de alimentar a lógica da máquina com materiais que promovam essa conversação positiva. “Em um mercado amplamente automatizado, o algoritmo decide o que existe e o silêncio corporativo atual pode apagar o futuro de muitos”, completa.