PEC 6×1 aprovada na Câmara, acordo EUA-Irã no fio da navalha, Raízen em recuperação extrajudicial e PIB americano desacelera

O pregão desta quinta-feira, 28 de maio, foi um dos mais densos do ano no mercado financeiro brasileiro. Em poucas horas, quatro eventos de peso aconteceram em paralelo: a Câmara dos Deputados aprovou a PEC que acaba com a escala 6×1, negociadores dos EUA e do Irã chegaram a um acordo frágil que ainda depende de Donald Trump, a Raízen avançou na divulgação dos termos de seu plano de recuperação extrajudicial e viu suas ações despencarem, e os dados do PIB americano do primeiro trimestre vieram confirmando desaceleração com inflação ainda pressionada. O Ibovespa operou de forma instável ao longo do dia, refletindo a dificuldade de precificar tantos vetores ao mesmo tempo.
PEC 6×1 aprovada: um marco no mercado de trabalho
Na madrugada desta quinta-feira, o plenário da Câmara dos Deputados aprovou em dois turnos a PEC que extingue a escala 6×1 e reduz a jornada máxima de trabalho para 40 horas semanais. A votação foi marcada por episódios incomuns, incluindo cantoria no plenário e provocações entre deputados. O resultado, no entanto, foi claro: a proposta avança e segue agora para o Senado, onde a aprovação não é garantida.
A PEC prevê transição em duas etapas. Sessenta dias após a promulgação, os trabalhadores já terão direito a dois dias de folga semanal e jornada de 42 horas. Doze meses depois, a jornada cai para 40 horas. Não há previsão de corte salarial em nenhuma das etapas. A folga de um dos dois dias é preferencialmente no domingo, mas não obrigatoriamente, abrindo espaço para negociações coletivas em setores como varejo, saúde e alimentação.
Para o mercado financeiro, a aprovação cria um vetor de custo para empresas intensivas em mão de obra. Ações de varejistas, redes de saúde e food service tendem a ser pressionadas nas sessões seguintes, à medida que analistas revisam projeções de lucro e custo de folha de pagamento. A CNC estimou, em fevereiro, que o impacto no comércio pode chegar a R$ 122,4 bilhões anuais. A CNI calcula R$ 267,2 bilhões para todos os setores. O próximo passo é o Senado, onde o texto passa por nova rodada de votação antes de eventual promulgação.
EUA e Irã: acordo no papel, incerteza na prática
O segundo grande evento do dia veio de Washington. O site Axios, citando duas autoridades americanas, informou que negociadores dos Estados Unidos e do Irã chegaram a um entendimento sobre um memorando de 60 dias para estender o cessar-fogo e iniciar negociações formais sobre o programa nuclear iraniano. A Reuters repercutiu a informação atribuída ao Axios. O acordo ainda dependia da aprovação final de Donald Trump.
O Ibovespa firmou alta assim que os relatos do acordo começaram a circular. Mas a reação foi curta. A Guarda Revolucionária do Irã afirmou ter atacado uma base aérea americana em resposta a novos ataques dos EUA no sul do país. O petróleo voltou a subir mais de 2%. As bolsas europeias, que já operavam em baixa pela manhã por conta de ataques noturnos, aprofundaram as perdas. A Ásia também fechou majoritariamente no vermelho.
O padrão do conflito se repete: negociadores avançam em salas fechadas enquanto militares trocam ataques no campo. O acordo de 60 dias, se aprovado por Trump, não encerra o conflito. Apenas congela temporariamente a escalada e abre uma janela para negociações sobre o ponto central: o programa nuclear iraniano. O secretário de Estado Marco Rubio havia dito na semana passada que havia “algo bastante sólido em cima da mesa”.
Raízen: plano de recuperação decepciona e ações despencam
Raízen: mercado reage mal aos termos do plano
A Raízen (RAIZ4) foi destaque negativo da bolsa nesta quinta-feira. A companhia avançou na divulgação dos termos de seu plano de recuperação extrajudicial, processo já em curso desde março, e o mercado reagiu negativamente às condições apresentadas. As ações despencaram na sessão.
O plano contempla injeção de capital, mudanças na diretoria e no conselho de administração, além de medidas para lidar com uma dívida que chegou a cerca de R$ 65 bilhões. A situação da empresa vinha se deteriorando há meses: em fevereiro, a S&P Global retirou o grau de investimento da Raízen e alertou para risco crescente de inadimplência, com dívida líquida de R$ 53,4 bilhões e queima de caixa persistente.
O que desagradou o mercado não foi a existência do plano, mas seus termos. Investidores esperavam medidas mais agressivas de desalavancagem, como venda de ativos ou entrada de um sócio estratégico. O pacote apresentado foi considerado insuficiente para conter a pressão financeira em um setor que convive com preços do etanol pressionados e custo de produção elevado.
PIB dos EUA: desaceleração e inflação persistente
Na agenda internacional, os dados do primeiro trimestre americano confirmaram desaceleração da economia. O PIB dos EUA cresceu 1,6% em taxa anualizada na segunda leitura do primeiro trimestre de 2026, revisão para baixo em relação à estimativa preliminar de 2,0%.
O índice de preços PCE, indicador preferido do Federal Reserve para medir inflação, subiu 4,5% no primeiro trimestre e 3,8% em abril na comparação anual, permanecendo em patamar elevado.
A combinação de crescimento fraco com inflação elevada, o chamado cenário de estagflação, é um dos ambientes mais desafiadores para o Federal Reserve. Cortar juros com inflação ainda elevada é arriscado. Manter juros altos em meio à desaceleração econômica também aumenta os riscos para atividade e emprego. Wall Street operou sem direção definida ao longo do pregão.
Para o Brasil, o dado americano importa por dois canais. O primeiro é o câmbio: juros elevados nos EUA por mais tempo atraem capital para ativos americanos e pressionam moedas emergentes, incluindo o real. O segundo é o fluxo de investimento estrangeiro: um ambiente de crescimento mais fraco nos EUA pode reduzir o apetite global por risco, mas também estimular investidores a buscar retornos mais altos em mercados emergentes.
Emprego no Brasil: CAGED de abril na agenda
O Ministério do Trabalho tinha previsão de divulgar nesta quinta-feira, às 14h30, os dados do CAGED de abril. No primeiro trimestre, o Brasil havia gerado 613,4 mil vagas formais, ritmo 9,1% menor do que no mesmo período de 2025, mas ainda positivo.
Os números de abril eram aguardados com atenção porque o mercado buscava avaliar se a geração de empregos manteve consistência mesmo com o aumento da incerteza global a partir de março, quando o conflito entre EUA e Irã ganhou intensidade.
O resultado também ganhou relevância política após a aprovação da PEC 6×1. Críticos da proposta argumentam que o aumento do custo trabalhista pode desestimular contratações formais e ampliar a informalidade. Defensores afirmam que jornadas menores tendem a elevar produtividade, qualidade de vida e eficiência no médio prazo.
O que fica do pregão
Poucos dias do ano reúnem tantos eventos relevantes em um único pregão. A aprovação da PEC 6×1 na Câmara representa um divisor de águas no mercado de trabalho e cria novos riscos e oportunidades para setores específicos da bolsa. O entendimento preliminar entre EUA e Irã, se aprovado por Trump, pode influenciar diretamente os preços globais do petróleo e o câmbio nas próximas semanas.
A Raízen reforça ao mercado os riscos de empresas altamente endividadas em um ambiente prolongado de juros elevados. E o PIB americano mais fraco com inflação persistente mostra que o Federal Reserve ainda enfrenta um cenário complexo para a condução da política monetária.
O Ibovespa encerra a semana em terreno incerto. O fechamento desta quinta-feira deve influenciar os primeiros pregões de junho, quando investidores voltarão a monitorar a trajetória da Selic, a tramitação da PEC no Senado e os desdobramentos do conflito no Oriente Médio.
Acompanhe a cobertura dos mercados na editoria de Mercados da Revista Empreende e os impactos da PEC 6×1 no mercado de trabalho nos próximos dias.