PF mira Beto Sicupira e filho de Jorge Lemann em nova fase do caso Americanas

Carlos Alberto Sicupira e Paulo Alberto Lemann foram identificados como alvos de mandados de busca e apreensão; investigação apura supostas fraudes contábeis estimadas pela Polícia Federal em aproximadamente R$ 54 bilhões.
A Polícia Federal e o Ministério Público Federal deflagraram nesta quinta-feira, 25 de junho de 2026, a segunda fase da Operação Disclosure, investigação que apura as fraudes contábeis reveladas pela Americanas em 2023. A nova etapa alcançou integrantes ligados à antiga estrutura de governança e ao grupo histórico de acionistas de referência da varejista.
Entre os alvos dos mandados de busca e apreensão estão Carlos Alberto da Veiga Sicupira, conhecido como Beto Sicupira, e Paulo Alberto Lemann, filho do empresário Jorge Paulo Lemann, segundo informações publicadas pelo UOL e por outros veículos que acompanham o caso. A Polícia Federal, em seu comunicado oficial, não divulgou nominalmente os investigados.
Ao todo, os agentes cumprem nove mandados de busca e apreensão, incluindo buscas pessoais, em endereços localizados nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo. As medidas foram autorizadas pela 10ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro, que também determinou o sequestro de bens e valores pertencentes aos investigados até o limite de R$ 54 bilhões. Não foram divulgados mandados de prisão contra Sicupira ou Paulo Lemann nesta etapa da operação.
Valor de R$ 54 bilhões exige cautela
A cifra de R$ 54 bilhões aparece tanto como estimativa atual das supostas fraudes investigadas pela PF quanto como limite máximo estabelecido para as medidas patrimoniais. Isso não significa, entretanto, que esse valor já tenha sido definitivamente comprovado como prejuízo ou que os investigados tenham sido condenados.
Na primeira fase da Operação Disclosure, realizada em junho de 2024, a Polícia Federal tratava o esquema como uma fraude estimada em aproximadamente R$ 25,3 bilhões, valor apresentado anteriormente pela própria Americanas. A comunicação da segunda fase elevou a estimativa para cerca de R$ 54 bilhões, mas a PF não detalhou, na nota divulgada nesta quinta-feira, a metodologia utilizada para chegar ao novo montante.
O sequestro de bens também não representa uma transferência imediata de R$ 54 bilhões aos credores da companhia. Trata-se de uma medida cautelar destinada a preservar eventual patrimônio enquanto as responsabilidades são investigadas. O valor efetivamente localizado e bloqueado pode ser inferior ao teto autorizado pela Justiça.
Investigação apura risco sacado e contratos sem lastro
Segundo a Polícia Federal, os suspeitos teriam conhecimento de irregularidades praticadas durante anos nas demonstrações financeiras da Americanas. A apuração concentra-se principalmente em operações de risco sacado e em lançamentos relacionados às chamadas Verbas de Propaganda Cooperada, conhecidas pela sigla VPC.
O risco sacado é uma modalidade por meio da qual uma instituição financeira antecipa a fornecedores os valores que seriam pagos por uma empresa. A dívida passa, então, a ser mantida com o banco. No caso da Americanas, a investigação apura se essas obrigações financeiras foram indevidamente registradas como dívidas comerciais com fornecedores, reduzindo artificialmente o endividamento bancário apresentado nos balanços.
As VPCs correspondem, em condições regulares, a descontos ou créditos concedidos por fornecedores em troca de campanhas promocionais e outras ações comerciais. A suspeita é de que contratos sem lastro econômico, ou em valores inflados, tenham sido contabilizados para aumentar artificialmente os resultados da varejista.
Nesta fase, a PF afirma ter encontrado indícios, em tese, dos crimes de manipulação de mercado e associação criminosa. A condição de alvo de busca e apreensão, porém, não significa reconhecimento de culpa. Os materiais recolhidos ainda deverão ser analisados, e eventuais responsabilizações dependem do avanço do inquérito, de possível denúncia do Ministério Público e de julgamento pelo Poder Judiciário.
Sicupira e Paulo Lemann integravam o conselho
Beto Sicupira foi durante décadas um dos principais nomes ligados à Americanas, ao lado de Jorge Paulo Lemann e Marcel Telles. Paulo Alberto Lemann, por sua vez, integrou o Conselho de Administração da companhia por anos e participava do colegiado quando as inconsistências contábeis vieram a público, em janeiro de 2023.
Documentos societários da própria empresa mostram que Sicupira e Paulo Lemann estavam entre os integrantes do Conselho de Administração que, em janeiro daquele ano, aprovaram a criação de um comitê independente para investigar as irregularidades. Os dois deixaram o conselho em setembro de 2024, quando uma nova composição foi eleita após bancos credores receberem ações e passarem a indicar representantes, conforme previsto no plano de recuperação judicial.
Em manifestações anteriores, Sicupira, Jorge Paulo Lemann e Marcel Telles negaram conhecer as irregularidades contábeis antes de elas serem reveladas. Em 2023, os acionistas de referência afirmaram que também haviam sofrido prejuízos e disseram confiar nas investigações para determinar as responsabilidades.
Caso levou a uma das maiores recuperações judiciais do país
A crise da Americanas começou publicamente em 11 de janeiro de 2023, quando a companhia anunciou inconsistências contábeis inicialmente estimadas em R$ 20 bilhões. O então presidente Sergio Rial e o diretor de Relações com Investidores André Covre, que estavam nos cargos havia poucos dias, deixaram a empresa.
Em 19 de janeiro daquele ano, a Americanas ingressou em recuperação judicial, declarando dívidas próximas de R$ 43 bilhões e aproximadamente 16,3 mil credores. O plano de recuperação foi aprovado pela assembleia de credores em dezembro de 2023 e homologado pela Justiça do Rio de Janeiro em fevereiro de 2024.
A investigação criminal conduzida pela PF e pelo MPF tramita separadamente da recuperação judicial. Por si só, a nova operação não cancela nem modifica automaticamente o plano aprovado pelos credores. Seus possíveis efeitos patrimoniais dependerão das decisões que forem tomadas na esfera criminal e de eventuais ações de ressarcimento.
A Americanas informou que não foi alvo dos mandados cumpridos nesta quinta-feira e afirmou que a operação se refere à fraude revelada em 2023. A companhia declarou que continuará colaborando com as autoridades e que tem interesse no esclarecimento dos fatos e na responsabilização dos envolvidos.