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Quando o golpe não dói, ele vira negócio

O risco invisível dos suplementos falsificados no e-commerce

Por *Déborah Luzzi

Eu demorei para escrever sobre isso porque, sinceramente, é um daqueles temas que incomodam. Incomodam porque expõem um problema grande demais, normalizado demais e conveniente demais para muita gente.

Mas depois de viver isso mais de uma vez, ficou impossível fingir que não existe.

Falo aqui como consumidora — e como alguém extremamente criteriosa ao comprar online. Ainda assim, fui vítima de produtos falsificados adquiridos por meio do Mercado Livre. Não uma vez.

Quando você só percebe porque conhece o original

Em momentos diferentes, comprei suplementos anunciados como originais de marcas conhecidas, como Essential Nutrition e NOW Foods, além de um suplemento de PQQ de outra marca importada. Também comprei um batom anunciado como original da MAC Cosmetics.

Em todos os casos, só percebi que algo estava errado porque eu já possuía os produtos originais. A diferença não era gritante. Era sutil. Relevo da embalagem. Encaixe da tampa. Textura do produto. No caso do batom, o bastão simplesmente se soltava inteiro quando virado de cabeça para baixo. A cor não batia exatamente. O acabamento também não.

Para um consumidor comum, que nunca teve o original lado a lado, aquilo passaria despercebido.

E é aí que mora o problema.

A ilusão das boas avaliações

Um dos fatores que mais enganam nesse cenário é o próprio sistema de avaliação das plataformas. Ao buscar por esses produtos, nos deparamos com dezenas — às vezes centenas — de avaliações positivas. Comentários que elogiam a entrega rápida, o sabor, o preço, a textura.

Mas nenhum desses elogios atesta autenticidade. O consumidor médio avalia com base em percepção imediata, e não em comprovação técnica. A lógica parece simples: se o produto chegou e não fez mal, está tudo certo. Mas será que está mesmo?

A verdade é que ninguém sabe ao certo o que está sendo consumido. Pode ser farinha, amido, um composto qualquer encapsulado em uma embalagem que imita a original com assustadora perfeição.

Há indícios de que a falsificação virou negócio

Não estamos mais lidando, ao que tudo indica, com casos isolados de falsificação artesanal. Há fortes sinais de que esse mercado opera hoje com estrutura.

Muitas falsificações apresentam nível de acabamento que não condiz com uma produção amadora. Embalagens bem-feitas, rótulos fiéis aos originais, cápsulas ou pós com aparência convincente — tudo isso sugere a atuação de operações organizadas, que contam com linha de produção, logística e distribuição.

Há fábricas conhecidas como white labels que produzem suplementos para marcas legítimas, mas que também podem ser contratadas para criar versões genéricas ou falsificadas. Quando bem executadas, essas cópias passam despercebidas por grande parte dos consumidores.

Se há investimento, é porque o retorno parece compensar.

Uma conta que fecha para alguns, mas custa caro para outros

Quando o preço de um suplemento falsificado é ligeiramente inferior ao original, ele se torna uma “boa oportunidade” na percepção do comprador. Isso aumenta a atratividade e faz o volume de vendas crescer rapidamente.

Quem se beneficia com esse modelo? O produtor clandestino, o vendedor e toda a cadeia comercial envolvida na transação.

Do outro lado, o consumidor perde — muitas vezes sem saber. Também perde a marca original, que vê seu faturamento e sua reputação ameaçados. E perde o mercado como um todo, que sofre com a perda de confiança.

Essas operações paralelas, inclusive, não atuam de forma marginal. Muitas lojas virtuais “monomarcas” conseguem competir diretamente com os canais oficiais, desviando um número significativo de vendas.

Um sistema que favorece quem vende mais — não necessariamente quem vende certo

As plataformas digitais priorizam anúncios com alto desempenho: aqueles que geram vendas, recebem boas avaliações e entregam no prazo. O problema é que esse modelo de ranqueamento favorece volume e conversão, não necessariamente legitimidade.

Se o produto não causa um efeito imediato negativo e se ninguém percebe que há algo errado, ele continua circulando como se fosse autêntico. O sistema, assim, perpetua o problema — sem perceber que está validando uma distorção.

O consumidor como último filtro

Hoje, espera-se que o próprio consumidor perceba fraudes com base em detalhes quase imperceptíveis. Para notar que fui enganada, precisei já ter tido o original em mãos, conhecer a textura, observar o encaixe da tampa, comparar tonalidades, sentir a diferença no uso.

É irreal supor que a maioria das pessoas terá esse nível de análise.

Essa responsabilidade técnica foi transferida, silenciosamente, para quem menos tem condições de assumi-la. E isso está sendo tratado como “atenção na hora de comprar”.

Na prática, o consumidor virou o último filtro de um sistema que deveria protegê-lo — não testá-lo.

Mais que falha: conveniência

Não se trata de uma conspiração orquestrada, mas de uma engrenagem que continua girando porque, economicamente, ela funciona.

A transação é concluída. O dinheiro circula. A queixa não chega. E quando não há dor visível, não há incentivo real para mudança.

Mudar implicaria custo, ajustes de processo, revisão de critérios. É mais simples manter o fluxo — mesmo que isso signifique expor milhares de pessoas a produtos de origem e composição desconhecidas.

Um risco que se disfarça de normalidade

Suplementos são produtos ingeríveis. Entram no organismo. E quando falsificados, não passam por controle sanitário.

Ainda assim, são comercializados com aparência legítima, amparados por avaliações que atestam apenas uma boa experiência de compra — não a autenticidade do produto.

A ausência de efeitos imediatos não é sinônimo de segurança. É só mais uma camada que encobre o problema.

A pergunta que precisa ser feita

Até quando vamos tratar suplementos falsificados como um problema menor só porque “ninguém morreu”?

Até quando marcas legítimas vão perder espaço para estruturas clandestinas mais agressivas e menos escrupulosas?

E até quando o consumidor vai continuar achando que fez um bom negócio, quando na verdade só comprou algo que não sabe o que é?

Porque quando o golpe não dói, ele cresce. E quando cresce, alguém está lucrando muito com isso.

*Déborah Luzzi é jornalista especializada, diretora e editora da Revista Empreende. É formada em Engenharia da Computação, com foco em tecnologia e empreendedorismo.

Nota da autora:

Este texto reflete a experiência pessoal e a análise crítica da autora, sem imputar responsabilidade jurídica específica a empresas, marcas ou plataformas, e tem como objetivo fomentar o debate sobre consumo consciente e riscos estruturais no comércio eletrônico