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Estados Unidos

Trump diz que acordo com Irã está ‘praticamente negociado’ e inclui reabertura do Estreito de Ormuz; petróleo despenca

Publicado em 23/05/2026 • 13:24 | Atualizado em 28/06/2026 • 19:11

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Donald Trump afirmou neste sábado (23) que um acordo com o Irã para encerrar o conflito que dura desde março está “praticamente negociado” e inclui a reabertura do Estreito de Ormuz, principal rota de escoamento de petróleo do mundo. A declaração foi feita ao portal americano Axios e gerou reação imediata nos mercados globais, com o preço do barril do petróleo tipo Brent caindo expressivamente na semana.

O presidente americano, no entanto, não fechou a questão. Ao mesmo tempo em que sinalizou avanço nas tratativas, estimou as chances de paz e guerra em “50/50” e prometeu uma decisão definitiva até o domingo (24). “Acho que uma de duas coisas vai acontecer: ou eu os destruo, ou vamos assinar um acordo que seja bom”, disse Trump.

Do lado iraniano, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Esmael Baghaei, confirmou que o país está “na fase final” das discussões de um memorando de entendimento com os Estados Unidos. A reabertura do Estreito de Ormuz, porém, é contestada por Teerã, que afirmou, por meio da agência de notícias Fars, ligada à Guarda Revolucionária, que a passagem “seguirá sob administração iraniana” e que uma reabertura está “longe da realidade”.

O que levou à guerra e como chegamos até aqui

Para entender o peso das negociações atuais, é preciso recuar alguns meses. Em março de 2026, os Estados Unidos iniciaram uma série de ataques aéreos contra as principais instalações nucleares do Irã, destruindo os complexos de Natanz, Fordow e Isfahan. Foi a ação militar americana mais significativa no Oriente Médio em décadas e pegou os mercados globais de surpresa.

A resposta iraniana foi fechar o Estreito de Ormuz, uma passagem marítima de apenas 33 quilômetros de largura no ponto mais estreito, mas por onde transita aproximadamente 20% de todo o petróleo consumido no planeta. O bloqueio fez o Brent disparar de US$ 80 para mais de US$ 110 por barril em poucos dias — um choque de oferta sem precedentes recentes.

Um cessar-fogo frágil entrou em vigor em 8 de abril. Desde então, o conflito acumulou avanços e recuos nas negociações. Trump cancelou ao menos um ataque de retaliação planejado em 19 de maio após pedido dos líderes da Arábia Saudita, do Catar e dos Emirados Árabes Unidos, que sinalizaram que “negociações sérias estavam em andamento”. Neste sábado, o cenário chegou ao momento mais concreto desde o início da trégua.

O que está na mesa do acordo

Segundo reportagem do Financial Times publicada neste sábado, mediadores estão próximos de fechar um acordo para estender o cessar-fogo por 60 dias, com reabertura gradual do Estreito de Ormuz prevista como parte dos termos. O texto negociado incluiria:

Encerramento formal das hostilidades e fim das operações navais americanas no Golfo Pérsico. Reabertura do Estreito de Ormuz ao tráfego comercial internacional. Liberação de ativos iranianos congelados no exterior. Compromisso de discutir a entrega do estoque de urânio altamente enriquecido pelo Irã. Alívio progressivo das sanções econômicas impostas ao país. Após a assinatura, as nações teriam entre 30 e 60 dias para negociar os termos de um tratado mais amplo e definitivo.

O nó central: o programa nuclear

O principal ponto de atrito permanece sendo o programa nuclear iraniano. Os Estados Unidos exigem que o Irã entregue seu estoque atual de cerca de 440 kg de urânio enriquecido próximo ao nível necessário para fabricar uma arma atômica e abandone definitivamente a capacidade de desenvolver tecnologia nuclear militar.

O secretário de Estado Marco Rubio, em visita à Índia neste sábado, reiterou a posição americana de forma categórica: “O Irã nunca poderá ter uma arma nuclear.” Do lado iraniano, fontes ouvidas pelo Financial Times indicam que Teerã estaria “provavelmente pronto para ceder mais em energia nuclear, mas não fará isso enquanto a guerra estiver em andamento”.

O porta-voz iraniano também citou o “histórico de declarações contraditórias e posições cambiantes do lado americano” como razão para cautela — uma referência às inúmeras ocasiões em que Trump anunciou acordos que depois não se concretizaram.

Quem está mediando e como está a agenda de Trump

A diplomacia de bastidores está sendo conduzida por múltiplos atores. O chefe do exército do Paquistão, general Asim Munir, deixou Teerã neste sábado após rodadas de conversas com autoridades iranianas, declarando ter havido “progresso encorajador na direção de um entendimento final”. Mediadores do Catar também participaram das tratativas ao longo de quinta e sexta-feira, mantendo contato com o enviado americano Steve Witkoff.

A agenda de Trump neste sábado incluía reunião com Witkoff e Jared Kushner, com a presença esperada do vice-presidente J.D. Vance, além de teleconferência com os líderes do Egito, Jordânia e Turquia. O secretário Rubio deixou aberta a possibilidade de um anúncio ainda no fim de semana: “É possível que, seja ainda hoje, amanhã ou daqui a alguns dias, tenhamos algo a anunciar.”

Um diplomata informado sobre o processo resumiu o momento ao Financial Times: “O acordo parece estar indo na direção certa. Está com os americanos agora para revisão.”

Irã avisa: se a guerra recomeçar, será pior

Mesmo em meio às negociações, o Irã mantém um discurso de força. O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou neste sábado que o país “reconstruiu suas capacidades militares durante o cessar-fogo” e advertiu que, caso os EUA retomassem os ataques, as consequências seriam mais “devastadoras e amargas” do que as anteriores. A Guarda Revolucionária também ameaçou estender o conflito “para além da região” caso um acordo não seja alcançado.

O tom dual — negociações avançando enquanto o discurso militar permanece firme — é típico da estratégia iraniana e complica a leitura dos mercados sobre a probabilidade real de um desfecho pacífico.

O impacto nos mercados: petróleo em queda, bolsas oscilando

A aproximação de um acordo tem efeito direto e imediato nos mercados de energia. O petróleo tipo Brent, que chegou a superar US$ 110 por barril durante os momentos de maior escalada do conflito, recuou mais de 8% nas últimas semanas com os sinais de avanço nas negociações, chegando a tocar US$ 100,84, segundo dados do Times Brasil. O WTI (petróleo americano) acompanhou o movimento, caindo 9,2% para cerca de US$ 92,85 por barril em uma das sessões mais intensas do período.

Para o Brasil, o impacto é direto em pelo menos duas frentes. A primeira é a Petrobras, cujas ações oscilam em linha com o preço internacional do petróleo — uma queda expressiva do Brent pressiona as margens da estatal e pode afetar os dividendos distribuídos aos acionistas. A segunda frente é o agronegócio: o bloqueio do Estreito de Ormuz elevou o custo dos fertilizantes importados, que passam majoritariamente pela região, pressionando os custos da próxima safra brasileira.

Segundo dados citados pelo InfoMoney, o Brasil exportou cerca de US$ 9 bilhões em produtos para a região no entorno de Ormuz em 2025, o que coloca o país em posição de interesse direto na normalização das rotas comerciais.

No mercado de câmbio, o dólar apresentou comportamento volátil durante o período mais agudo do conflito, pressionado pela aversão ao risco global. A perspectiva de um acordo tende a reduzir essa pressão, favorecendo moedas de países emergentes como o real.

O que esperar nas próximas horas

Trump prometeu uma decisão definitiva até domingo (24): guerra ou acordo. Os mercados internacionais, que operam com liquidez reduzida no fim de semana, deverão reagir com força na abertura de segunda-feira (25), dependendo do desfecho.

Se um acordo for anunciado, o cenário imediato é de alívio nos preços do petróleo, fortalecimento de bolsas globais, queda do dólar frente a moedas emergentes e redução da pressão inflacionária global causada pelo custo de energia. Para o Ibovespa, a abertura tenderia a ser positiva, com destaque para setores sensíveis ao petróleo e ao câmbio.

Se as negociações fracassarem e Trump optar pela retomada dos ataques, o cenário se inverte: petróleo voltaria a disparar, o dólar ganharia força como ativo de refúgio, bolsas de todo o mundo abririam em queda e o Brasil sentiria pressão adicional nos preços de combustíveis e fertilizantes.

Para acompanhar os desdobramentos e entender os impactos no mercado financeiro brasileiro, a cobertura de mercados da Revista Empreende seguirá atualizada ao longo do fim de semana. O caso também tem consequências relevantes para o agronegócio brasileiro e para os preços de energia que afetam toda a cadeia de empresas no país.