Botafogo x Athletico-PR além do campo: duelo expõe dois modelos bilionários de negócio no futebol

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Enquanto o Botafogo SAF alcançou R$ 1,4 bilhão em faturamento bruto, mas convive com passivo superior a R$ 2 bilhões, o Athletico-PR construiu patrimônio líquido acima de R$ 1 bilhão. Vitória paranaense por 3 a 2 ajuda a revelar duas estratégias distintas para transformar futebol em negócio.
A vitória do Athletico-PR por 3 a 2 sobre o Botafogo, na noite de segunda-feira (24), no estádio Nilton Santos, colocou o confronto entre os assuntos mais pesquisados pelos brasileiros. Dentro de campo, Kevin Viveros foi o grande personagem ao marcar duas vezes, enquanto João Cruz completou o placar para o Furacão. Santi Rodríguez fez os dois gols do time carioca.
Fora das quatro linhas, porém, Botafogo x Athletico-PR coloca frente a frente dois casos empresariais que ajudam a explicar a transformação do futebol brasileiro.
De um lado está uma SAF que atingiu R$ 1,4 bilhão em faturamento bruto em 2025, impulsionada principalmente por uma agressiva estratégia de compra, valorização e venda de jogadores. Do outro, um clube associativo que atravessou a Série B, registrou prejuízo no último exercício, mas encerrou 2025 com R$ 1,071 bilhão em patrimônio líquido, o maior valor entre os clubes brasileiros segundo levantamento baseado nos balanços publicados.
A comparação mostra por que faturamento, patrimônio, resultado e endividamento precisam ser analisados separadamente quando o futebol passa a ser observado como negócio.
Botafogo alcança R$ 1,4 bilhão em faturamento, mas vendas de jogadores pesam no resultado
A SAF do Botafogo informou faturamento bruto recorde de R$ 1,4 bilhão em 2025. O número impressiona, mas uma análise da composição das receitas revela o peso do mercado de transferências na operação alvinegra.
Do total, aproximadamente R$ 733 milhões foram provenientes da venda de jogadores, alta de 661% em relação ao ano anterior. Ou seja, mais da metade do faturamento bruto divulgado esteve relacionada à negociação de atletas.
Considerando as receitas operacionais relacionadas a atividades como direitos de transmissão, premiações, bilheteria, sócio-torcedor e exploração comercial da marca, um laudo de avaliação econômica divulgado em abril apontou receita operacional bruta de aproximadamente R$ 655 milhões em 2025.
A diferença é relevante porque mostra como a negociação de jogadores deixou de ser apenas uma atividade esportiva e passou a ocupar papel central no modelo econômico de alguns clubes brasileiros.
Jogadores são, simultaneamente, peças do time e ativos capazes de gerar centenas de milhões de reais.
Dívida do Botafogo supera R$ 2 bilhões
Se o faturamento chama atenção pelo tamanho, o balanço do Botafogo também evidencia um dos principais desafios do crescimento acelerado: o endividamento.
As demonstrações financeiras referentes a 2025 registraram passivo total de aproximadamente R$ 2 bilhões, contra cerca de R$ 1,5 bilhão em ativos. Desse passivo, mais de R$ 1,3 bilhão correspondia a obrigações de curto prazo.
O clube encerrou o exercício ainda com patrimônio líquido negativo de aproximadamente R$ 432 milhões. Além disso, cerca de R$ 1,1 bilhão das contas a pagar estava relacionado à transferência de jogadores, incluindo direitos econômicos, intermediações, luvas e outras obrigações vinculadas às contratações.
A auditoria independente BDO se absteve de emitir opinião sobre as demonstrações financeiras de 2025, apontando, entre outros fatores, limitações na obtenção de informações e incertezas relacionadas à continuidade operacional diante das obrigações de curto prazo.
É o retrato de uma estratégia de expansão que movimenta cifras enormes, mas também exige geração de caixa suficiente para sustentar compromissos igualmente elevados.
Athletico-PR ultrapassa R$ 1 bilhão em patrimônio líquido
A situação do Athletico-PR oferece um contraponto interessante.
O clube terminou 2025 com R$ 1,071 bilhão em patrimônio líquido, tornando-se o único clube brasileiro a ultrapassar R$ 1 bilhão nesse indicador naquele exercício.
O patrimônio líquido representa, de forma simplificada, a diferença entre os bens e direitos de uma organização e todas as suas obrigações. É diferente, portanto, de faturamento ou dinheiro disponível em caixa.
O passivo total do Athletico ao fim de 2025 era de aproximadamente R$ 404,8 milhões, enquanto o patrimônio líquido havia sido sustentado por capital social, reservas e principalmente superávits acumulados ao longo dos exercícios anteriores.
Essa reserva tornou-se particularmente importante porque 2025 não foi um ano lucrativo para o clube.
Rebaixamento fez receitas caírem e encerrou sequência de 11 anos de lucro
Após 11 exercícios consecutivos com resultado positivo, o Athletico fechou 2025 com déficit de R$ 58,1 milhões.
O faturamento atingiu R$ 512,6 milhões, mas a passagem pela Série B afetou importantes fontes de receita.
Os direitos de transmissão, por exemplo, caíram de R$ 57,5 milhões em 2024 para R$ 23,6 milhões em 2025. Já as receitas provenientes de negociações de atletas passaram de R$ 284,5 milhões para aproximadamente R$ 203,3 milhões. A arrecadação de bilheteria e matchday terminou em R$ 69,6 milhões.
O caso mostra quanto o desempenho esportivo pode alterar diretamente o resultado financeiro de um clube.
Cair de divisão significa enfrentar contratos menores de televisão, redução de exposição para patrocinadores, mudanças na bilheteria e menor capacidade de monetização de diferentes ativos.
Investimento de R$ 27,5 milhões em Viveros ajuda a explicar estratégia do Athletico
Existe ainda uma coincidência que conecta perfeitamente o aspecto esportivo ao financeiro de Botafogo x Athletico-PR.
O protagonista da vitória desta segunda-feira foi justamente Kevin Viveros.
O atacante colombiano marcou duas vezes no Nilton Santos e chegou a 16 gols no Campeonato Brasileiro, assumindo a artilharia isolada da competição.
Viveros também representa um dos maiores investimentos já realizados pelo Athletico.
Contratado junto ao Atlético Nacional em 2025, o atacante custou aproximadamente R$ 27,5 milhões, tornando-se a contratação mais cara da história do clube na ocasião.
A operação ilustra uma lógica cada vez mais presente no futebol profissional: comprar jogadores não significa necessariamente apenas aumentar despesas.
Para clubes capazes de identificar talentos, desenvolver atletas e posteriormente negociá-los, uma contratação pode ser tratada como investimento em um ativo com possibilidade de valorização.
O Athletico possui histórico relevante nesse mercado. Apenas em 2025, nomes como Canobbio, Rômulo e Cuello renderam dezenas de milhões de reais ao clube por meio de transferências.
Botafogo x Athletico-PR mostra que faturar mais não significa necessariamente ser financeiramente mais sólido
A comparação entre os dois clubes deixa uma lição importante para qualquer negócio.
Receita não é lucro. Faturamento não é patrimônio. E crescimento não significa necessariamente solidez financeira.
O Botafogo movimenta cifras superiores a R$ 1 bilhão e passou a operar em uma escala financeira incomum para o futebol brasileiro. Ao mesmo tempo, enfrenta passivos elevados e uma estrutura que depende fortemente do mercado de jogadores.
O Athletico-PR possui faturamento significativamente menor, sofreu prejuízo após o impacto esportivo e financeiro da Série B, mas mantém uma estrutura patrimonial construída durante anos consecutivos de resultados positivos.
Não existe, portanto, apenas um modelo vencedor.
A transformação dos clubes em organizações cada vez mais profissionalizadas está criando diferentes estratégias: algumas baseadas em crescimento acelerado, outras em formação e negociação de jogadores, patrimônio imobiliário, infraestrutura, receitas recorrentes e controle de endividamento.
Nesse contexto, Botafogo x Athletico-PR deixou de ser apenas um jogo de futebol.
O confronto entre uma SAF de faturamento bilionário e um clube associativo com mais de R$ 1 bilhão de patrimônio mostra que a disputa mais interessante do futebol brasileiro também acontece nos balanços.