Ibovespa avança com otimismo externo, mas IPCA-15 acima do teto da meta e PEC 6×1 dividem atenções nesta quarta

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O mercado brasileiro acordou nesta quarta-feira, 27 de maio, com uma agenda densa e dados que apontam em direções opostas. O Ibovespa abriu em alta de 0,40%, aos 177.316 pontos, acompanhando o humor positivo no exterior, onde o boom de inteligência artificial e o otimismo com as negociações de paz entre Estados Unidos e Irã impulsionam bolsas europeias e americanas. Mas logo nas primeiras horas do pregão, o IBGE publicou o IPCA-15 de maio, e o número veio acima do esperado, colocando a inflação de volta no centro do debate.
O Ibovespa operava próximo à estabilidade no meio da manhã, após a divulgação dos dados de inflação, com apenas oito ações em alta no índice em determinados momentos. O dólar abriu em alta e sustenta o patamar de R$ 5,00, pressionado pelo IPCA-15 e pela cautela com o Oriente Médio.
IPCA-15: 0,62% em maio, maior resultado para o mês desde 2016
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística divulgou nesta manhã a prévia da inflação oficial de maio. O IPCA-15 ficou em 0,62% no mês, resultado que veio acima da mediana das projeções de analistas e instituições financeiras consultados pelo Valor Data. É o maior resultado para o mês de maio desde 2016.
No acumulado dos últimos 12 meses até maio, o indicador atingiu 4,64%, acima do teto da meta de inflação estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional para 2026, que é de 4,5%. Em abril, o acumulado em 12 meses estava em 4,37%. A aceleração de 0,27 ponto percentual em um único mês mostra que a convergência para a meta ficou mais distante, não mais próxima.
Os principais vetores do resultado foram Alimentação e Bebidas, grupo que teve a maior variação no mês e respondeu por 0,30 ponto percentual do total de 0,62%. Serviços também pressionaram, mantendo o padrão de resiliência que preocupa o Banco Central há meses. A inflação de serviços é considerada mais persistente e de difícil controle por instrumentos de política monetária convencional.
A reação dos mercados ao dado foi curiosa: os juros futuros recuaram após a divulgação, contrariando o que seria a leitura mais imediata. A explicação está no exterior. A queda nos preços do petróleo e nos Treasuries americanos pesou mais do que o dado doméstico ruim nas taxas de DI, ao menos por ora. Mas o IPCA-15 acima do teto da meta mantém vivo o debate sobre até onde o Banco Central pode ir no ciclo de corte da Selic.
Petróleo recua e alivia o mercado
Depois de subir quase 4% na terça-feira, quando os EUA realizaram novos ataques contra o Irã em violação ao cessar-fogo, o petróleo recuou nesta quarta. O Brent chegou a cair mais de 5% no início do pregão europeu, reagindo às notícias de que as negociações de paz entre Washington e Teerã retomaram algum progresso.
A CNN Brasil reportou que investidores permanecem esperançosos de que um acordo para encerrar o conflito esteja próximo. Para o Brasil, a queda do Brent é um alívio duplo: reduz a pressão sobre os combustíveis e, por consequência, sobre a inflação, e alivia o prêmio de risco geopolítico que vinha pesando sobre o câmbio.
A Petrobras, no entanto, tende a reagir negativamente à queda do barril no curto prazo. Papéis da estatal costumam ter correlação positiva com o petróleo, e investidores que compraram PETR3 e PETR4 na esteira da alta de ontem podem enfrentar realização nesta sessão.
Wall Street e o exterior: IA segue como vetor de alta
Os índices americanos abriram em alta nesta quarta. O Valor Econômico reportou que o boom da inteligência artificial e o otimismo geopolítico impulsionam mercados globais, com bolsas europeias e asiáticas operando majoritariamente no verde. A ADVFN confirmou: Wall Street sobe com alta da Micron e alívio no petróleo.
A Micron Technology, fabricante de chips de memória que abastece servidores de IA, divulgou resultados acima das expectativas e puxou o setor de tecnologia para cima. O movimento reforça a narrativa de que a demanda por infraestrutura de inteligência artificial segue robusta, mesmo com juros ainda elevados nos EUA. Para a B3, o efeito é indireto, via BDRs de empresas de tecnologia e via sentimento de risco global, mas é real.
PEC 6×1: votação pode acontecer ainda hoje
O maior evento político-econômico do dia é a PEC que acaba com a escala 6×1. O presidente da Câmara, Hugo Motta, decidiu antecipar a votação em plenário: o que estava previsto para quinta-feira pode acontecer ainda nesta quarta. A comissão especial analisava o relatório do deputado Leo Prates nesta quarta, com expectativa de votação e possível envio ao plenário.
O mercado acompanha com atenção. Ações de varejo, saúde e alimentação fora do lar, os setores com maior exposição à mudança de jornada, tendem a reagir ao resultado da votação. Empresas como Grupo Casas Bahia, Renner, Raia Drogasil, Hapvida e grandes redes de food service têm parcelas relevantes de seus custos operacionais atreladas a folha de pagamento em regime de escala.
A PEC prevê transição em duas etapas: dois dias de folga semanal e jornada de 42 horas entram em vigor 60 dias após a promulgação; a jornada cai para 40 horas após 12 meses. Não há redução salarial. O texto passa pela Câmara e depois vai ao Senado.
Destaque do dia: TAEE3 e BHIA3
Entre os papéis de maior movimentação na abertura, a Taesa (TAEE3) avançou 2,46%, refletindo a busca por ativos defensivos em meio a um ambiente de maior cautela. Companhia do setor de transmissão de energia, a empresa é vista pelo mercado como uma opção de receita mais previsível, sustentada por contratos de longo prazo e histórico de distribuição de dividendos. Em um cenário marcado por inflação acima do esperado e incertezas externas, ações de utilities tendem a ganhar espaço entre investidores que buscam proteção e menor volatilidade.
O Casas Bahia (BHIA3) saltou 10,45% em determinado momento da manhã, movimento expressivo que merece cautela. Altas abruptas sem catalisador claro costumam ser seguidas de realização. A Copasa (CSMG3) recuava 6,78%, entre as maiores quedas do pregão, sofrendo com incertezas regulatórias e pressão sobre margens.
O que monitorar até o fim do pregão
A sessão desta quarta tem três vetores principais que vão definir o fechamento do Ibovespa. O primeiro é a evolução das negociações EUA-Irã: qualquer sinalização negativa voltará a pressionar o petróleo para cima e o índice para baixo. O segundo é o resultado da votação da PEC 6×1 no plenário da Câmara. Se acontecer hoje, a reação dos setores de varejo e saúde pode ser imediata. O terceiro é o comportamento do dólar: sustentado acima de R$ 5,00, a moeda americana mantém pressão sobre importados e dificulta a convergência da inflação para a meta.
O IPCA-15 de 0,62%, maior para maio desde 2016, acumulando 4,64% em 12 meses acima do teto da meta, é o dado que vai ficar na cabeça dos analistas ao longo da semana. Ele não muda a Selic de imediato, mas coloca em xeque a narrativa de que o processo desinflacionário brasileiro está bem encaminhado. O próximo COPOM é em junho, e a ata da última reunião já havia sinalizado cautela. Com este IPCA-15, a cautela aumenta.
Acompanhe a evolução do Ibovespa, do câmbio e dos dados macroeconômicos na editoria de Mercados da Revista Empreende. O resultado da votação da PEC 6×1 também será coberto em tempo real.
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