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Mercado de Luxo

Joias superam a moda e se tornam novo motor de crescimento do mercado de luxo

03/08/2026 • 13:38

Joias superam moda e impulsionam mercado de luxo
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Enquanto bolsas, roupas e acessórios avançam lentamente, marcas como Cartier, Van Cleef & Arpels, Tiffany e Bulgari registram crescimento acelerado e atraem investimentos dos maiores conglomerados do setor

As joias estão assumindo um papel cada vez mais estratégico no mercado global de luxo. Em um período marcado por recuperação desigual do consumo, demanda ainda moderada na China e dificuldades enfrentadas por importantes marcas de moda, a alta joalheria aparece como uma das categorias mais resistentes da indústria.

Os resultados recentes dos principais conglomerados reforçam essa mudança. A Richemont, proprietária de Cartier, Van Cleef & Arpels, Buccellati e Vhernier, encerrou o trimestre terminado em junho de 2026 com vendas de € 6,3 bilhões, crescimento de 20% em taxas de câmbio constantes.

O principal impulso veio justamente das maisons de joias, cujas vendas avançaram 24% no período. Foi o sétimo trimestre consecutivo de crescimento de dois dígitos da divisão, segundo a companhia. O desempenho superou com folga a expectativa dos analistas e ajudou a elevar a confiança dos investidores no segmento.

A força das joias também apareceu nos resultados da LVMH. No segundo trimestre de 2026, a divisão de relógios e joias do grupo apresentou crescimento orgânico de 11%, tornando-se o negócio de expansão mais rápida dentro do conglomerado.

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No mesmo período, a área de moda e artigos de couro, que reúne marcas como Louis Vuitton e Dior, cresceu apenas 1%. Embora o resultado tenha representado a primeira alta trimestral da divisão em dois anos, a diferença revela como as joias estão avançando em um ritmo muito superior ao chamado “luxo macio”, categoria formada principalmente por roupas, bolsas e acessórios.

Cartier e Van Cleef lideram avanço da Richemont

A Richemont tornou-se um dos maiores exemplos de como a joalheria pode sustentar o crescimento de um grupo de luxo mesmo em um ambiente econômico instável.

Entre abril e junho de 2026, as vendas da companhia cresceram em todas as principais regiões. Nas Américas, o avanço foi de 27%, enquanto a região Ásia-Pacífico registrou alta de 21%. O Japão apresentou expansão de 36%, e a Europa cresceu 11%.

As vendas no varejo, que representam a comercialização direta aos consumidores nas lojas das marcas, aumentaram 24% e responderam por 71% do faturamento da Richemont. O controle direto da distribuição permite às maisons preservar margens, administrar estoques e oferecer experiências mais exclusivas aos clientes.

Cartier e Van Cleef & Arpels estão entre as marcas mais importantes dessa expansão. As duas maisons combinam reconhecimento global, produtos icônicos, produção artesanal e uma ampla faixa de preços, que começa em joias de entrada e alcança peças únicas destinadas aos consumidores mais ricos do mundo.

Essa estrutura permite que as marcas atendam tanto clientes aspiracionais quanto compradores de patrimônio elevado, interessados em pedras raras, peças personalizadas e coleções de alta joalheria.

Tiffany e Bulgari fortalecem resultados da LVMH

A LVMH também vem ampliando a relevância de suas marcas de joias. A divisão que reúne Tiffany & Co., Bulgari, Chaumet, Fred, TAG Heuer e outras maisons alcançou receita de € 5,22 bilhões no primeiro semestre de 2026, com crescimento orgânico de 9%.

Somente no segundo trimestre, a receita da área chegou a € 2,78 bilhões. A companhia destacou o desempenho de Tiffany e Bulgari, que apresentaram forte crescimento em mercados com elevada concentração de riqueza, especialmente Estados Unidos e Coreia do Sul.

O desempenho contrasta com o resultado semestral da divisão de moda e artigos de couro. Apesar da recuperação observada entre abril e junho, a área ainda acumulou queda orgânica de 1% no primeiro semestre.

A diferença não significa que bolsas e roupas deixaram de ser importantes. A moda continua sendo uma das principais fontes de receita e rentabilidade da indústria. Entretanto, os números mostram que as joias estão oferecendo aos conglomerados uma proteção maior contra a volatilidade do consumo aspiracional.

Por que as joias resistem melhor às crises?

Uma das explicações está no perfil do consumidor. O topo do mercado de luxo é sustentado por pessoas de patrimônio muito elevado, menos afetadas por inflação, juros altos ou desacelerações econômicas de curto prazo.

Esse público também costuma valorizar exclusividade, materiais raros, tradição artesanal e atendimento personalizado. Diferentemente de uma peça associada a uma temporada de moda, uma joia pode ser comprada para marcar um casamento, um aniversário, uma conquista profissional ou a formação de um patrimônio familiar.

A percepção de durabilidade ajuda a justificar preços elevados. Algumas peças são tratadas como objetos colecionáveis ou bens que podem atravessar gerações. Isso não significa, porém, que toda joia seja um investimento financeiro garantido. Valor de revenda, liquidez, procedência, raridade e reconhecimento da marca variam consideravelmente.

O que parece estar impulsionando o setor não é apenas o valor dos metais ou das pedras, mas a combinação entre matéria-prima, design, história e força da maison.

Esse ponto diferencia a alta joalheria das joias comercializadas no mercado de massa. A elevação do preço do ouro pode reduzir o consumo de peças genéricas e mais acessíveis, ao mesmo tempo em que criações raras de marcas reconhecidas continuam sendo procuradas por consumidores de alta renda. Projeções da Metals Focus indicam, inclusive, uma retração da demanda global por ouro destinado à joalheria em 2026, mostrando que o crescimento não ocorre de maneira uniforme em toda a cadeia.

Kering amplia investimentos no segmento de joias

A movimentação dos grandes conglomerados também confirma a importância estratégica da categoria. Em julho de 2026, a Kering anunciou um acordo para adquirir gradualmente o Raselli Franco Group, fabricante italiano especializado em joalheria.

O plano começa com a compra de uma participação de 20% por € 115 milhões e prevê um caminho para a aquisição integral até 2032. A operação deverá fortalecer a capacidade produtiva das marcas de joias da Kering, entre elas Boucheron, Pomellato, DoDo e Qeelin.

Segundo o grupo, a transação permitirá controlar competências importantes de fundição, usinagem, gravação e acabamento de materiais preciosos. O movimento indica que a disputa no setor não acontece apenas nas vitrines, mas também no acesso a artesãos, fornecedores, oficinas e tecnologias de produção.

Experiência exclusiva passa a fazer parte do produto

As marcas também estão transformando a apresentação das coleções em experiências privadas. Em vez de depender somente das lojas tradicionais, as maisons organizam viagens, jantares, exposições e encontros reservados para clientes selecionados.

As coleções de alta joalheria geralmente são apresentadas durante semanas de alta-costura ou em destinos frequentados por compradores de grande patrimônio. Muitas peças são únicas e podem ser reservadas antes mesmo de chegarem ao público mais amplo.

Esse modelo aproxima o cliente dos designers, gemólogos e artesãos responsáveis pelas criações. Ao mesmo tempo, aumenta a sensação de pertencimento a um universo restrito, elemento essencial para a manutenção do desejo no mercado de luxo.

Joalheria pode definir os próximos vencedores do luxo

O crescimento de Cartier, Van Cleef & Arpels, Tiffany e Bulgari mostra que as joias deixaram de ser apenas uma categoria complementar dentro dos grandes conglomerados.

Elas se transformaram em um dos principais motores de crescimento, rentabilidade e relacionamento com consumidores ultrarricos. Em um mercado no qual algumas marcas de moda ainda tentam recuperar relevância e reconquistar compradores aspiracionais, possuir uma joalheria forte tornou-se uma vantagem competitiva.

Os próximos investimentos da indústria deverão envolver expansão de oficinas, contratação de artesãos, controle de fornecedores, experiências privadas e desenvolvimento de peças de maior valor agregado.

Se o comportamento atual continuar, a alta joalheria poderá desempenhar no novo ciclo do luxo o papel que bolsas e artigos de couro exerceram nas últimas décadas: ser a categoria mais desejada, rentável e disputada do mercado global.