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Economia

Mercado avalia impactos da reeleição de Lula sobre ativos brasileiros após forte queda da Bolsa

27/10/2026 • 07:20

B3 Brasil, Bolsa, Balcão trading floor with traders, monitors, and market board
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Ibovespa registra maior recuo desde 2020, dólar dispara e juros futuros avançam no primeiro pregão após o segundo turno. Para especialistas, condução da política fiscal será decisiva para o comportamento dos investimentos nos próximos meses.

A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para um quarto mandato presidencial provocou uma forte reação no mercado financeiro brasileiro nesta segunda-feira (26). O resultado do segundo turno, que contrariou as expectativas incorporadas por parte dos investidores nas últimas semanas, desencadeou uma expressiva desvalorização das ações, acompanhada pela alta do dólar e dos juros futuros. O movimento reflete uma revisão das perspectivas para a economia brasileira, especialmente em relação à condução das contas públicas a partir de 2027.

O Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, encerrou o pregão em queda de 13,88%, aos 176.608,23 pontos, registrando sua maior perda percentual diária desde março de 2020, quando os mercados foram atingidos pela crise provocada pela pandemia de Covid-19. A intensidade das vendas levou a B3 a acionar o mecanismo de circuit breaker, interrompendo as negociações por 30 minutos após o índice atingir queda de 10%. Na mínima do dia, o recuo chegou a superar 17%.

No mercado de câmbio, o dólar comercial avançou 8,21%, encerrando a sessão cotado a R$ 5,4029, na maior valorização diária da moeda americana frente ao real desde janeiro de 1999. A pressão também atingiu o mercado de renda fixa. Os contratos de juros futuros registraram altas expressivas, com a taxa para janeiro de 2031 alcançando 15,185% ao ano, avanço de 2,54 pontos percentuais em relação ao ajuste da sexta-feira anterior.

A reação representa uma mudança significativa em comparação ao comportamento dos ativos após o primeiro turno, realizado em 4 de outubro. Na ocasião, a liderança do senador Flávio Bolsonaro (PL) alimentou expectativas de alternância no comando do Executivo e de uma política econômica potencialmente mais orientada ao controle das despesas públicas. No pregão seguinte, o Ibovespa avançou 7,7%, enquanto o dólar e os juros futuros recuaram.

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Com a confirmação da vitória de Lula, que recebeu 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, investidores passaram a desfazer posições construídas diante da possibilidade de mudança de governo. O ajuste foi particularmente intenso porque os preços dos ativos já refletiam, em alguma medida, um cenário político diferente daquele confirmado pelas urnas.

Política fiscal concentra as preocupações dos investidores

Para Sara Paixão, analista de macroeconomia da InvestSmart XP, a reação negativa estava relacionada à necessidade de revisão das expectativas construídas após o primeiro turno. Em avaliação sobre o comportamento esperado dos mercados, a especialista antecipou um movimento de realização de posições em ações brasileiras, acompanhado pela valorização do dólar e pela abertura da curva de juros, cenário que se confirmou ao longo da sessão.

Segundo a analista, o resultado eleitoral recoloca a sustentabilidade das contas públicas no centro das decisões de investimento.

“O principal desafio do quarto mandato de Lula continuará sendo o ajuste fiscal”, afirma Sara, destacando a preocupação com medidas adotadas no período pré-eleitoral que ampliam despesas ou reduzem receitas.

Entre as iniciativas mencionadas pela especialista estão o programa de recompra de dívidas, a ampliação do limite de faturamento dos microempreendedores individuais (MEIs) e o reajuste do Bolsa Família. Embora tenham objetivos econômicos e sociais distintos, essas medidas aumentam a atenção dos investidores sobre seus efeitos fiscais e sobre a capacidade do governo de conciliar políticas públicas com a estabilização da dívida.

Em setembro, o governo anunciou uma nova etapa do Desenrola Brasil, permitindo à União adquirir carteiras de dívidas com descontos para facilitar a renegociação de débitos de pessoas físicas. Também foram aprovadas alterações nas regras dos MEIs, incluindo o aumento gradual do teto de faturamento e o perdão de determinados débitos tributários. No caso do Bolsa Família, o reajuste de 15,04%, válido a partir de outubro, foi apresentado pelo governo como uma recomposição das perdas acumuladas pela inflação.

A avaliação dos efeitos fiscais dessas medidas depende de fatores como seu custo efetivo, as compensações orçamentárias e a evolução da arrecadação. O governo, por sua vez, sustenta a importância de políticas de crédito, renda e estímulo à atividade econômica, além de defender a manutenção do arcabouço fiscal. O desafio será demonstrar como essas prioridades poderão coexistir com uma trajetória sustentável para as finanças públicas.

Juros elevados e câmbio pressionado ampliam os efeitos sobre a economia

A reação do mercado não ficou restrita às ações. A elevação dos juros futuros indica que investidores passaram a exigir uma remuneração maior para assumir riscos associados aos prazos mais longos, diante das incertezas sobre inflação, endividamento público e política fiscal.

Esse movimento tem consequências potenciais para empresas e consumidores. A permanência de taxas elevadas tende a encarecer o financiamento de investimentos, aumentar o custo de capital das companhias e dificultar o acesso ao crédito. Setores mais dependentes de financiamento, como construção civil, varejo e infraestrutura, são particularmente sensíveis às mudanças nas expectativas de juros.

A valorização do dólar também pode exercer pressão sobre os custos de empresas que dependem de insumos importados, embora represente uma vantagem cambial para exportadoras com receitas denominadas na moeda americana. A extensão desses efeitos dependerá da persistência da desvalorização do real e das condições da economia nos próximos meses.

A volatilidade levou o Tesouro Nacional a cancelar os leilões de títulos prefixados e indexados à inflação previstos para esta semana, mantendo a operação programada com títulos vinculados à Selic. A decisão evidenciou a dimensão do ajuste que atingiu também o mercado de dívida pública.

Próximos sinais do governo serão decisivos

Embora a resposta inicial dos investidores tenha sido intensa, o comportamento dos ativos brasileiros nos próximos meses dependerá menos do resultado eleitoral isoladamente e mais das decisões econômicas que serão anunciadas para o novo mandato.

A definição das prioridades fiscais, a composição da equipe econômica e a capacidade de articulação com o Congresso Nacional estarão entre os principais elementos observados pelos agentes financeiros. Também ganharão importância as perspectivas para a dívida pública, a execução do orçamento e a consistência das metas fiscais.

“Nesse cenário, as sinalizações do governo sobre a condução da política fiscal e a divulgação da equipe técnica nos próximos meses serão fundamentais para determinar a trajetória dos ativos brasileiros”, avalia Sara Paixão.

A intensidade da reação desta segunda-feira mostra como as expectativas políticas podem influenciar rapidamente a formação de preços no mercado financeiro. Entretanto, a direção futura desses ativos não está determinada apenas pela vitória de um candidato ou pela frustração das apostas realizadas durante a campanha.

Para o governo reeleito, o desafio será transformar a legitimidade conquistada nas urnas em previsibilidade econômica, oferecendo aos investidores maior clareza sobre o financiamento das políticas públicas e os compromissos com a estabilidade fiscal.

Depois de um pregão marcado por perdas históricas, o mercado brasileiro entra em uma nova etapa de avaliação de riscos. A atenção dos investidores se desloca agora da disputa eleitoral para as decisões que definirão os rumos da política econômica a partir de 2027.