Morning Call | Ibovespa abre em queda com novos ataques dos EUA ao Irã; petróleo dispara e Brent se aproxima dos US$ 80

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O Ibovespa abriu o pregão desta terça-feira, 26 de maio, em queda de 0,31%, aos 177.261 pontos, em uma sessão que prometia ser de alívio mas foi interrompida pela piora das tensões entre Estados Unidos e Irã. O mercado brasileiro destoa do humor externo: enquanto Wall Street retomou as negociações após o feriado do Memorial Day com leve alta — impulsionada por otimismo com inteligência artificial e notícias de cessar-fogo no Oriente Médio —, a bolsa local acumula pressão de um fator que afeta diretamente o Brasil: o petróleo voltou a subir.
O Brent avançou quase 4% na manhã desta terça após o Irã acusar os Estados Unidos de terem violado o cessar-fogo em vigor ao realizar ataques contra bases de mísseis no sul do país e contra embarcações comerciais iranianas na região de Hormozgan, no Golfo Pérsico. Teerã reagiu com um comunicado do Ministério das Relações Exteriores afirmando que “nenhuma agressão ficará sem resposta” — linguagem que colocou imediatamente investidores em modo defensivo. O Irã chegou a ameaçar elevar o preço do petróleo a US$ 200 por barril caso os ataques continuem, segundo fontes militares divulgadas nesta manhã.
O que está em jogo no Oriente Médio
O cenário é de alta volatilidade e sinais contraditórios. No fim de semana, as negociações entre Washington e Teerã pareciam avançar — o presidente Trump havia declarado no sábado que um acordo estava “praticamente negociado” e incluía a reabertura do Estreito de Ormuz. Nesta terça, essa narrativa foi colocada em xeque. O Irã derrubou o que chamou de “principal drone de combate estadunidense” em seu espaço aéreo, e a Tradingview reportou que as tratativas de paz “entraram em uma nova fase precária”.
Para o Brasil, o impacto é direto: o país é grande produtor de petróleo via Petrobras, e os papéis da estatal costumam reagir positivamente à alta do barril. Mas há um contrapeso — o encarecimento do combustível pressiona a inflação e pode forçar o Banco Central a ser mais cauteloso na trajetória de redução da Selic.
Destaques do pregão: Ambev, Brava e Cyrela
Em meio ao cenário adverso, alguns papéis nadam contra a maré. O destaque da manhã é a Ambev (ABEV3), que chegou a subir 3,17% após o BTG Pactual elevar a recomendação do papel de neutro para compra e aumentar o preço-alvo de R$ 17 para R$ 20 — upside de 22% sobre o fechamento da véspera. É uma mudança de posicionamento relevante: o BTG manteve cautela com a ação por 13 anos. A nova tese do banco aposta que a Ambev preservou o protagonismo de preços que retomou em 2025, e que isso agora é estruturalmente sustentável. O dividend yield de 7% e a posição de caixa líquido da empresa reforçam o argumento.
A Brava Energia (BRAV3) também opera em alta, com ganhos de cerca de 2%, após a petroleira colombiana Ecopetrol anunciar oferta pública de aquisição de até 25% das ações da empresa por R$ 23 por papel. O BTG Pactual calculou que a operação pode gerar uma Taxa Interna de Retorno (TIR) anualizada de até 68% para investidores que aderirem parcialmente à oferta, considerando o fechamento da véspera a R$ 19,93. A operação ainda precisa de aprovações regulatórias, mas o anúncio já foi suficiente para movimentar os papéis.
No lado negativo, São Martinho (SMTO3) recua mais de 2% após reportar resultados abaixo do esperado. Cyrela (CYRE3) também cai, mesmo após o Bradesco BBI manter a recomendação de compra — o banco reduziu o preço-alvo de R$ 41 para R$ 36, projetando 59% de upside, mas a revisão para baixo das projeções de lucro pesou no humor com o papel.
Wall Street e a volta do otimismo com IA
O contraste com os mercados americanos é notável. Na retomada após o feriado do Memorial Day, os três principais índices de Nova York abriram em leve alta. O otimismo é alimentado por dois vetores: as perspectivas de um acordo de paz no Oriente Médio — ainda que frágeis após os ataques desta manhã — e o contínuo entusiasmo com inteligência artificial, que vem sustentando as cotações de empresas de tecnologia mesmo em cenário de juro alto nos EUA.
A Nvidia, principal termômetro do apetite por IA no mercado americano, segue próxima de suas máximas históricas. O impacto sobre os BDRs de empresas americanas negociados na B3 é positivo, mas insuficiente para compensar o pessimismo doméstico com o Oriente Médio.
Agenda do dia e o que monitorar
A pauta doméstica desta terça é carregada. O Banco Central divulgou pela manhã os dados do balanço de pagamentos de abril, com a dívida externa bruta atingindo US$ 416,976 bilhões — alta de US$ 15,8 bilhões em relação a março. Os dados detalham também o fluxo de investimento estrangeiro em ações, que foi positivo em US$ 986 milhões no mês, e o déficit na conta de viagens internacionais, que alcançou US$ 1,456 bilhão.
No campo político, a Câmara dos Deputados segue discutindo o relatório da PEC que acaba com a escala 6×1, apresentado ontem pelo deputado Leo Prates. A votação no plenário está marcada para quinta-feira (28). O tema tem implicações diretas para ações do varejo e da saúde, setores com maior exposição à mudança de jornada.
O STJ marcou para a semana que vem, dia 3 de junho, o julgamento que pode ampliar a penhora de salários para pagamento de dívidas não alimentares — decisão que, se confirmada, pode afetar o mercado de crédito ao consumidor e instituições financeiras com carteiras de empréstimo pessoal.
O dólar à vista opera com leve alta, com máxima registrada em R$ 5,0305 na manhã desta terça. O movimento reflete a busca por proteção cambial em dia de maior aversão a risco — especialmente de investidores com exposição ao Oriente Médio via commodities.
Para o restante do pregão, o mercado vai monitorar: eventuais novos comunicados do Irã ou dos EUA sobre o conflito; o desempenho do petróleo (qualquer recuo no Brent pode aliviar o Ibovespa); e o fluxo estrangeiro na B3, que em abril registrou entrada positiva de quase US$ 1 bilhão em ações e pode ser o fator de suporte para o índice ao longo do dia.