EUA ampliam pressão comercial e propõem novas tarifas sobre países investigados por trabalho forçado

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A nova ofensiva comercial dos Estados Unidos pode elevar significativamente os custos de exportação para empresas brasileiras e ampliar as tensões nas relações econômicas entre Brasília e Washington. Relatório divulgado pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) recomenda a aplicação de tarifas adicionais sobre produtos provenientes de aproximadamente 60 países investigados no âmbito da Seção 301 da legislação comercial norte-americana por supostas falhas relacionadas ao combate ao trabalho forçado em cadeias produtivas.
Pela proposta apresentada, os países analisados seriam enquadrados em dois níveis de sobretaxação, com alíquotas extras de 10% ou 12,5%. O Brasil foi incluído no grupo sujeito à tarifa mais elevada, o que acende um alerta para setores exportadores que dependem do mercado norte-americano como destino estratégico de suas vendas externas.
A preocupação aumenta porque a nova recomendação se soma a outra investigação conduzida pelo USTR especificamente contra o Brasil. O relatório referente a esse processo foi divulgado em 1º de julho e também prevê medidas tarifárias adicionais sobre determinados produtos brasileiros.
Caso ambas as propostas avancem e sejam implementadas pelo governo norte-americano, algumas exportações brasileiras poderão enfrentar uma carga tarifária acumulada de até 37,5%, colocando o país entre os mercados mais onerados para acessar os Estados Unidos.
Mercado americano é estratégico para a indústria brasileira
Os Estados Unidos permanecem como o segundo principal destino das exportações brasileiras, atrás apenas da China. Em 2025, o intercâmbio comercial entre os dois países superou US$ 80 bilhões, segundo dados oficiais do comércio exterior, com forte participação de produtos industriais, máquinas, equipamentos, aeronaves, autopeças, químicos, siderurgia e manufaturados de maior valor agregado.
Diferentemente da pauta exportadora destinada à China, fortemente concentrada em commodities agrícolas e minerais, as vendas brasileiras para os Estados Unidos possuem maior participação da indústria de transformação, segmento que tende a ser mais sensível ao aumento de tarifas e à perda de competitividade internacional.
Especialistas em comércio exterior avaliam que uma sobretaxação dessa magnitude pode provocar redução de margens, perda de contratos e até deslocamento de fornecedores brasileiros em favor de concorrentes localizados em países sujeitos a barreiras menores.
Competitividade em risco
Na prática, a imposição de tarifas adicionais encarece os produtos brasileiros para importadores norte-americanos. Dependendo do setor, o aumento de custos pode inviabilizar operações ou estimular compradores a buscar alternativas em mercados concorrentes, especialmente em segmentos industriais onde a disputa por preço é intensa.
Além dos impactos diretos sobre exportadores, a medida também gera insegurança para investimentos, planejamento industrial e expansão de empresas que utilizam os Estados Unidos como mercado prioritário.
Analistas destacam que o efeito pode ser particularmente relevante para cadeias ligadas à metalurgia, bens de capital, produtos químicos, equipamentos industriais e manufaturas de maior valor agregado, setores que historicamente encontram nos Estados Unidos um dos seus principais mercados consumidores.
Solução negociada ganha importância
Diante desse cenário, entidades empresariais reforçam a necessidade de intensificar o diálogo diplomático entre os governos brasileiro e norte-americano para evitar a consolidação das medidas.
A avaliação do setor privado é que uma solução negociada para a investigação da Seção 301 envolvendo especificamente o Brasil tornou-se ainda mais urgente, uma vez que a combinação das duas investigações pode criar condições de acesso significativamente menos favoráveis para produtos brasileiros em comparação com seus principais concorrentes globais.
A preocupação é que o país perca espaço justamente em segmentos industriais considerados estratégicos para a geração de empregos, inovação tecnológica e agregação de valor às exportações.
Amcham defende fortalecimento da parceria bilateral
Em nota, a Amcham Brasil destacou que continuará apoiando iniciativas voltadas ao diálogo entre os dois governos e à preservação da relação econômica bilateral.
A entidade ressalta que Brasil e Estados Unidos mantêm uma das mais importantes parcerias comerciais do continente, envolvendo investimentos bilionários, integração produtiva e milhares de empresas que operam nos dois mercados.
Enquanto as recomendações do USTR ainda dependem das próximas etapas do processo regulatório e de eventuais decisões políticas em Washington, o setor empresarial brasileiro acompanha com atenção os desdobramentos das investigações. O resultado poderá influenciar não apenas o fluxo de comércio entre os dois países, mas também a competitividade internacional da indústria brasileira nos próximos anos.