Novartis enfrenta revés clínico após compra da Avidity por US$ 12 bilhões
Ouvir materia
voz de IA no navegador
A Novartis informou, em 8 de setembro de 2026, que o estudo global de fase III HARBOR não atingiu seu desfecho primário. O ensaio avaliava o delpacibart etedesiran, também chamado de del-desiran, em pessoas com distrofia miotônica tipo 1. O resultado ganhou relevância empresarial porque o ativo foi incorporado pela farmacêutica com a aquisição da Avidity Biosciences, concluída por aproximadamente US$ 12 bilhões em fevereiro.
O resultado representa o primeiro teste relevante para a tese econômica da transação. Isso não significa que a aquisição tenha fracassado, que o medicamento tenha sido descontinuado ou que haverá baixa contábil. A questão para a gestão da Novartis é como avaliar o ativo e distribuir expectativas dentro de uma plataforma comprada para ampliar o portfólio de terapias de RNA e apoiar o crescimento até o fim da década.
O que aconteceu com o estudo da Novartis
Segundo a atualização oficial da Novartis, o HARBOR não demonstrou melhora estatisticamente significativa em relação ao placebo no tempo de abertura da mão em vídeo, conhecido pela sigla vHOT. Esse era o desfecho primário do estudo para pacientes com distrofia miotônica tipo 1.
O HARBOR foi estruturado como um ensaio global, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo. A companhia informou que analisará o conjunto completo de dados antes de determinar o caminho apropriado para o desenvolvimento do del-desiran. Assim, qualquer conclusão sobre encerramento do programa, abandono da tecnologia ou impacto financeiro definitivo seria prematura.
A análise integral poderá ajudar a empresa a entender o comportamento do tratamento em outros parâmetros avaliados e a decidir os próximos passos. Até essa revisão ser concluída, o fato confirmado é que o objetivo principal não foi alcançado. A empresa não apresentou, no comunicado, uma decisão final sobre a continuidade do ativo.
A aquisição de US$ 12 bilhões entra em validação
A Novartis concluiu a compra da Avidity em 27 de fevereiro de 2026, pagando US$ 72 em dinheiro por ação. A contraprestação total, em base totalmente diluída, foi estimada em aproximadamente US$ 12 bilhões. A operação incorporou uma plataforma de conjugados anticorpo-oligonucleotídeo direcionados a músculos e três programas clínicos avançados.
A lógica da aquisição não dependia formalmente de um único produto, mas o estágio avançado do del-desiran elevava sua importância. Em biotecnologia, operações desse porte reúnem propriedade intelectual, conhecimento científico, equipes especializadas e ativos ainda expostos ao risco clínico. O revés evidencia por que a diversificação do pipeline é central na avaliação de aquisições farmacêuticas.
O preço pago também aumenta a atenção sobre a capacidade de a plataforma gerar produtos validados. Entretanto, o desempenho de um ensaio isolado não permite calcular o retorno total da transação, especialmente porque a compra incluiu outros programas e a tecnologia desenvolvida pela Avidity.
Outros programas ganham peso estratégico
Com a incerteza sobre o del-desiran, os outros dois programas adquiridos tornam-se ainda mais relevantes. O del-brax está em desenvolvimento de fase III para distrofia muscular facioescapuloumeral, enquanto o del-zota estava em fase II para distrofia muscular de Duchenne, conforme as divulgações da Novartis.
Esses ativos ajudarão a medir se a plataforma pode produzir valor além de uma indicação específica. O avanço clínico também precisa ser acompanhado por capacidade operacional e acesso aos tratamentos, tema presente em iniciativas relacionadas a cadeias de fornecimento para terapias especializadas.
Guidance é mantido, mas execução exige atenção
Apesar do resultado do HARBOR, a Novartis manteve a projeção de crescimento anual composto das vendas entre 5% e 6%, em moeda constante, de 2025 a 2030. Trata-se de uma meta corporativa, e não de um resultado já realizado. Em julho, a empresa também havia reafirmado para 2026 a expectativa de crescimento de vendas em dígito baixo e queda do lucro operacional core em dígito baixo, ambos em moeda constante.
A companhia chegou ao episódio com escala financeira relevante. No segundo trimestre de 2026, registrou vendas líquidas de US$ 14,408 bilhões, alta de 3% em dólares e de 1% em moeda constante, além de fluxo de caixa livre de US$ 5,561 bilhões. Os números oferecem capacidade para financiar pesquisa, mas não eliminam a necessidade de disciplina na alocação de capital.
A avaliação da compra da Avidity dependerá dos dados completos do HARBOR, da decisão sobre o del-desiran e do avanço dos demais programas. O episódio mostra que comprar inovação acelera o acesso a plataformas e equipes, mas também incorpora riscos científicos que só podem ser esclarecidos por resultados clínicos consistentes.