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Nubank rompe barreira de US$ 1 bilhão de lucro e prepara salto global com México e Estados Unidos

17/08/2026 • 18:19

Nubank welcome desk with staff assisting customers in a modern branch
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Com 139 milhões de clientes, receita trimestral próxima de US$ 5,9 bilhões e retorno sobre patrimônio de 33%, banco digital acelera monetização na América Latina e prepara sua entrada no maior mercado financeiro do mundo. A questão agora é até onde o Nubank pode crescer.

O Nubank entrou em uma nova fase de sua história. Treze anos depois de nascer com a proposta de desafiar os grandes bancos brasileiros por meio de um cartão de crédito sem tarifas e uma operação essencialmente digital, a instituição ultrapassou pela primeira vez a marca de US$ 1 bilhão de lucro líquido em um único trimestre e começa a testar se o modelo construído na América Latina pode ser transformado em uma plataforma financeira verdadeiramente global.

No segundo trimestre de 2026, a Nu Holdings, controladora do Nubank, registrou lucro líquido de US$ 1,06 bilhão, avanço de 49% em relação ao mesmo período do ano anterior e de 17% na comparação trimestral. O resultado ficou acima dos cerca de US$ 967 milhões esperados por analistas consultados pela Visible Alpha. A receita chegou a aproximadamente US$ 5,9 bilhões, crescimento de 39% em base cambial neutra.

Mais importante do que o recorde isolado é a combinação entre escala e rentabilidade. O Nubank encerrou junho com 139 milhões de clientes no Brasil, México e Colômbia e apresentou retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) de 33%. O lucro bruto alcançou US$ 2,4 bilhões, 43% acima de um ano antes.

Os números colocam uma nova pergunta sobre a mesa: depois de provar que consegue crescer e gerar bilhões de dólares em lucro na América Latina, até onde o Nubank pode avançar — e será possível transformar uma fintech brasileira em uma potência financeira global?

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Nubank chega a 139 milhões de clientes

A escala alcançada pelo banco já é incomum mesmo quando comparada à de instituições financeiras tradicionais.

Somente no segundo trimestre, aproximadamente 4 milhões de novos clientes entraram na plataforma. O Brasil permanece como centro da operação, com quase 118 milhões de clientes. O México chegou a 15,8 milhões ao final de junho e alcançou 16 milhões em julho, enquanto a Colômbia superou a marca de 5 milhões.

O desafio, entretanto, deixou de ser apenas conquistar usuários. O Nubank precisa transformar essa enorme base em clientes que concentrem cada vez mais sua vida financeira dentro da instituição. Um dos indicadores utilizados para medir essa evolução é o ARPAC — receita média mensal por cliente ativo —, que chegou a aproximadamente US$ 17 no segundo trimestre.

A taxa de atividade mensal atingiu 83,5% globalmente. No Brasil, superou 86% pela primeira vez.

É justamente essa combinação de escala, engajamento e venda crescente de produtos que começa a alterar a natureza econômica do Nubank. A empresa não precisa necessariamente conquistar centenas de milhões de novos clientes para continuar crescendo em ritmo elevado: existe espaço significativo para aumentar a receita obtida com os clientes que já possui.

Crédito se transforma em uma das principais máquinas de crescimento

A carteira total de crédito do Nubank chegou a US$ 39,4 bilhões, crescimento de 37% em relação ao ano anterior.

Desse total, aproximadamente US$ 26 bilhões estavam concentrados em cartões de crédito, US$ 10,3 bilhões em empréstimos sem garantia e outros US$ 3,1 bilhões em modalidades de crédito com garantia. Os depósitos alcançaram US$ 45,3 bilhões, alta de 18% em um ano.

O crescimento do crédito ajudou a levar a receita de juros líquida a US$ 3,7 bilhões no trimestre. A margem financeira líquida, ou NIM, atingiu 22,9%, enquanto a margem ajustada ao risco avançou para 12,4%, ante 9,5% no trimestre anterior. Os custos de crédito, por sua vez, recuaram 9% na comparação trimestral, para cerca de US$ 1,7 bilhão.

A expansão do crédito, porém, também representa um dos principais riscos para os próximos anos.

A inadimplência entre 15 e 90 dias ficou em 4,8%, enquanto os atrasos acima de 90 dias subiram para 6,9%. À medida que o banco amplia empréstimos e avança sobre consumidores de diferentes perfis de risco, manter a qualidade da carteira será fundamental para preservar a rentabilidade atual.

Brasil deixa de ser apenas mercado de crescimento e vira laboratório de monetização

No Brasil, o Nubank já alcançou uma parcela tão grande da população adulta que sua próxima fronteira está cada vez menos ligada à simples abertura de contas.

A estratégia passa por aumentar a chamada “principalidade”: tornar-se o banco principal do cliente. Isso significa ampliar participação em crédito, investimentos, seguros, pagamentos e serviços para empresas, além de disputar consumidores de maior renda tradicionalmente concentrados nos grandes bancos.

A companhia vem expandindo o Ultravioleta e, em julho, lançou o Nubank Croma, direcionado ao segmento classificado pela instituição como “Super Core”. A proposta inclui atendimento dedicado, crédito ampliado e benefícios associados à concentração da vida financeira dentro do Nubank.

Há ainda uma expansão importante no mercado empresarial. Segundo a própria companhia, o Nu já atende mais pequenas empresas no Brasil do que qualquer outra instituição financeira.

O movimento é estratégico porque coloca o Nubank em áreas com potencial de receita por cliente significativamente maior do que aquela que marcou sua primeira década de crescimento.

México pode se tornar o segundo grande motor do Nubank

Se o Brasil representa a prova de que o modelo funciona em escala, o México está se tornando o principal teste de replicabilidade internacional.

O Nu recebeu em julho autorização da Comisión Nacional Bancaria y de Valores para iniciar operações como banco. Com mais de 15 milhões de clientes naquele momento, tornou-se o maior banco digital do México.

A companhia pretende investir pesado no país. O plano anunciado prevê que os investimentos acumulados no México alcancem US$ 4,2 bilhões até 2030. Em fevereiro, quando apresentou a estratégia, o Nu estava adicionando aproximadamente um milhão de clientes por trimestre.

O potencial de monetização também chama atenção. No segundo trimestre, o Nubank informou que o ARPAC mexicano estava em US$ 12,30, contra US$ 5,60 registrados pelo Brasil em estágio equivalente de desenvolvimento da operação. A empresa já alcança cerca de 16,5% da população adulta mexicana.

Isso ajuda a explicar por que o México pode assumir importância crescente na avaliação do grupo. Se conseguir repetir parte da trajetória brasileira com monetização mais rápida, o país poderá se transformar no segundo grande pilar financeiro do Nubank.

Colômbia completa a plataforma latino-americana

A Colômbia é menor em escala, mas também avança rapidamente. O Nubank já ultrapassou 5 milhões de clientes no mercado colombiano. A operação oferece cartão de crédito e conta digital, enquanto a companhia prepara a ampliação gradual do portfólio.

A estratégia conta inclusive com financiamento internacional. A subsidiária colombiana firmou uma linha de crédito de até US$ 150 milhões com a U.S. International Development Finance Corporation para apoiar sua expansão no país.

Brasil, México e Colômbia formam, portanto, uma plataforma com quase 140 milhões de consumidores e mercados que ainda apresentam oportunidades relevantes de inclusão e aprofundamento financeiro. Mas o próximo passo muda completamente a dimensão do desafio.

Estados Unidos serão o maior teste internacional da história do Nubank

Em janeiro de 2026, o Nubank recebeu aprovação condicional do Office of the Comptroller of the Currency (OCC) para estabelecer o Nubank, N.A., um banco nacional nos Estados Unidos.

Caso cumpra as exigências regulatórias e obtenha as aprovações definitivas necessárias, a instituição poderá oferecer contas de depósito, cartões de crédito, empréstimos e custódia de ativos digitais no mercado americano.

O movimento começou formalmente em setembro de 2025, quando a empresa protocolou o pedido de licença bancária nacional. A própria companhia ressalta que sua prioridade de crescimento continua sendo a América Latina, enquanto 2026 será utilizado para construir a infraestrutura necessária à futura operação americana.

A expansão está sendo liderada pela cofundadora Cristina Junqueira. Os Estados Unidos representam uma oportunidade gigantesca, mas também um desafio diferente de tudo que o Nubank enfrentou até agora.

Ao contrário do ambiente que encontrou no Brasil em 2013 — marcado por forte concentração bancária, tarifas elevadas e experiência digital limitada —, o mercado americano possui milhares de instituições financeiras, fintechs sofisticadas e gigantes como JPMorgan Chase, Bank of America, Wells Fargo e Citigroup.

O Nubank precisará provar que sua vantagem tecnológica consegue gerar diferenciação mesmo em um mercado muito mais competitivo.

Eficiência continua sendo uma vantagem estrutural

Um dos pilares da tese de crescimento internacional é a eficiência. Mesmo com investimentos em expansão internacional, tecnologia, marketing e estrutura, o índice de eficiência do Nubank ficou em 19,5% no segundo trimestre, ante 21,3% um ano antes. A companhia também está apostando intensamente em inteligência artificial.

O NuFormer, modelo proprietário voltado ao comportamento financeiro, já está sendo utilizado em cartões de crédito no Brasil e México e em empréstimos pessoais no mercado brasileiro. Novas aplicações estão sendo testadas em pequenas empresas e cartões colombianos.

Segundo o Nubank, agentes de IA já processam mais de 60% das conversas de atendimento ao cliente no Brasil, com desempenho igual ou superior ao atendimento humano segundo métricas internas da companhia.

A lógica é clara: quanto maior a base de clientes, mais dados são produzidos; quanto melhores os modelos de risco e personalização, maior pode ser a oferta de crédito e produtos; e quanto mais processos forem automatizados, menor tende a ser o custo marginal para atender novos consumidores.

US$ 1 bilhão para recomprar ações sinaliza nova maturidade financeira

Outro movimento ajuda a ilustrar a transformação financeira do grupo. Em junho, o conselho da Nu Holdings autorizou um programa para recomprar até US$ 1 bilhão em ações ao longo de 12 meses.

A decisão chama atenção porque empresas em estágio acelerado de expansão normalmente direcionam grande parte do capital disponível ao crescimento. Uma companhia capaz de simultaneamente financiar expansão internacional, investir bilhões em novos mercados e recomprar ações começa a apresentar características de uma instituição financeira madura.

No primeiro semestre de 2026, a Nu acumulou aproximadamente US$ 10,48 bilhões em receita e US$ 1,93 bilhão em lucro líquido. Os ativos totais chegaram a US$ 82,75 bilhões e os depósitos encerraram junho em US$ 45,33 bilhões.

Até onde o Nubank pode crescer?

O recorde de lucro de 2026 não encerra a história de crescimento do Nubank. Ele muda a natureza dessa história.

A primeira fase foi provar que um banco sem agências poderia conquistar dezenas de milhões de brasileiros. A segunda foi demonstrar que essa enorme base poderia ser monetizada com eficiência e rentabilidade. A terceira está começando agora: descobrir se a arquitetura tecnológica e econômica construída no Brasil pode atravessar fronteiras.

O México será o principal laboratório dessa tese no curto prazo. Os Estados Unidos poderão ser o teste definitivo.

O potencial é enorme, mas os riscos também crescem. Internacionalização exige capital, adaptação regulatória, conhecimento local e capacidade de competir com instituições estabelecidas. Ao mesmo tempo, a expansão do crédito torna qualidade de carteira e inadimplência variáveis cada vez mais relevantes para os resultados.

Ainda assim, a fotografia atual é difícil de ignorar: 139 milhões de clientes, quase US$ 5,9 bilhões de receita trimestral, mais de US$ 1 bilhão de lucro em três meses, ROE de 33% e operações em três dos maiores mercados latino-americanos, enquanto a empresa prepara sua entrada nos Estados Unidos.

O Nubank nasceu tentando provar que poderia competir com os grandes bancos brasileiros. Treze anos depois, a questão mudou. Agora, o mercado começa a descobrir se o banco digital criado no Brasil pode construir algo muito maior: uma das primeiras potências financeiras globais originadas na América Latina.