Grandes conglomerados brasileiros reavaliaram carteiras de negócios e começam 2026 desfazendo aquisições para focar em core business, sinalizando novo modelo estratégico.
Gigantes como Alpargatas, CVC, Natura e Technos anunciaram nos últimos 3 meses a venda de ativos considerados “correlatos” aos seus negócios principais. A tendência é clara: depois de uma década de diversificação agressiva e aquisições em segmentos adjacentes, grandes corporações brasileiras estão fazendo o caminho inverso, retornando ao seu core business.
Alpargatas vendeu suas linhas de artigos esportivos de menor volume. CVC desmontou a operação de hotelaria própria, focando em intermediação. Natura se livrou de marcas secundárias de cuidado pessoal. Technos alienou a divisão de relógios inteligentes. Não se trata de crise financeira; trata-se de realocação de capital para onde ele gera retorno mais alto.
Por que a simplificação estratégica ganha força em 2026
Três razões econômicas explicam essa virada: primeira, os mercados agora punem conglomerados com múltiplos segmentos. Vale mais uma empresa 100% focada em um mercado do que uma empresa diversificada em 5 mercados com margens diluídas. Analistas cobram um “desconto de conglomerado” de 20-30% da avaliação.
Segunda, custo de capital aumentou globalmente. Quando juros reais eram negativos, comprar e manter ativos subsidiários fazia sentido. Agora, com juros globais em 5-6% ao ano, cada real alocado em ativo que não é core resgata taxa de retorno de oportunidade muito alta.
Terceira, turbulência geopolítica reduz horizonte de planejamento. Empresas preferem estar mais ágeis, com menos ativos imobilizados, capazes de pivotar rapidamente. Uma empresa simples consegue fazer isso; um conglomerado complexo, não.
O case das gigantes e seus repositionamientos
Alpargatas retorna ao que sabe fazer bem: calçados e vestuário esportivo de qualidade. CVC volta ao modelo puro de intermediação de viagens, deixando hotelaria para players especializados. Natura aprofunda presença em skincare cosmético de qualidade, abandonando segmentos baixo-margem. Technos vira fabricante exclusiva de relógios, sem distração de wearables.
Cada operação libera capital que volta aos acionistas via dividendo ou vai para fortalecimento de core business. Resultado esperado: margens operacionais sobem, ROIC melhora, valuation normalizas e preços de ação se recuperam.
O que isso significa para o mercado corporativo brasileiro
Essa simplificação estratégica cria oportunidades para mid-market players especializados. Enquanto gigantes se desincumbem de ativos, fundos de PE e empresários buscam comprar essas divisões e operá-las com foco. Espera-se pelo menos 15 transações desse tipo entre maio e outubro de 2026.
Também cria demanda por especialistas em reestruturação, M&A e carve-out de operações. Consultoras e bancos de investimento já reportam pipeline aquecido de projetos de simplificação para 2026 e 2027.
Tendências globais que motivam a volta ao core business
Este movimento acompanha tendência global: Berkshire Hathaway começou a vender suas posições em alguns negócios satélites. TPG focou em core PE. 3G Capital mantém carteira ultra-concentrada. Mensagem ao mercado é a mesma: eficiência ganha de diversificação em tempos de taxa elevada.
Brasil apenas segue a onda. Daqui a 6 meses, espera-se que mais 20 empresas mid-cap anunciem desinvestimentos em ativos não-core. O mercado vai premia-las.
Próximos passos: consolidação e recentralização
Até final de 2026, projeção é que conglomerados brasileiros reduzam número de segmentos de negócio em média de 35% comparado a 2024. Empresas passam de 8-10 divisions para 4-5. Operacional fica mais enxuto, mais ágil, menos burocrático.
Acionistas ganham: visibilidade sobre retorno é maior. Mercado ganha: competição em cada segmento aumenta quando players especializados tomam conta dos mercados deixados por gigantes. Consumidor ganha ao final: foco estratégico leva a produtos e serviços melhores.
Fontes: Valor Econômico, AmCham Brasil.