Índice Global revela que Brasil piora na avaliação de facilidade para fazer negócios, ultrapassado apenas por Líbano e Síria.
O Brasil desceu mais uma posição no Índice Global de Complexidade de Negócios de 2026. Agora ocupa o terceiro lugar entre os países mais difíceis para operacionalizar uma empresa, ultrapassado apenas por Líbano e Síria. A notícia preocupa investidores e empreendedores que planejavam expandir operações no país. Especialistas apontam que a queda é resultado de anos de acúmulo de entraves regulatórios sem uma contrapartida efetiva de simplificação.
A queda reflete uma combinação de complexidade tributária crescente e instabilidade macroeconômica. Segundo especialistas, a situação coloca em risco projetos de expansão de startups brasileiras e investimentos estrangeiros, que muitas vezes preferem mercados com menor custo operacional.
Por que o Brasil está ficando mais complexo?
A complexidade não surge do nada. Ela é resultado de decisões políticas, regulamentações acumuladas ao longo de décadas, e falta de simplificação burocrática. O Brasil mantém um dos códigos tributários mais intrincados do mundo, com centenas de leis, portarias e resoluções que mudam constantemente.
Além disso, a inflação de regras de compliance nas áreas de meio ambiente, trabalhista e fiscal torna a operação empresarial cara e lenta. Pequenas e médias empresas, em especial, sofrem com o custo de estar regularizado. Um empresário de pequeno porte pode gastar em torno de 30% do seu tempo lidando com obrigações acessórias, em vez de focar no crescimento do negócio.
Outro fator que pesa é a instabilidade regulatória. Regras mudam com frequência, exigindo que empresas gastem recursos para se adaptar. Contratos que eram viáveis ontem podem se tornar onerosos amanhã com a publicação de uma nova portaria ou resolução. Isso desincentiva o investimento de longo prazo.
Impacto no investimento externo
O ranking prejudica a imagem do Brasil internacionalmente. Empresas multinacionais levam em conta a facilidade para fazer negócios quando escolhem onde alocar capital. Um ranking desfavorável significa menos investimento externo direto, menos postos de trabalho qualificados, e menor diversificação econômica.
Dados do Banco Central mostram que o Brasil ainda atrai volumes consideráveis de IED (Investimento Externo Direto), mas grande parte vai para setores de commodities, onde a abundância de recursos naturais compensa a complexidade regulatória. Para setores de serviços e tecnologia, a disputa com países mais amigáveis para negócios é muito mais difícil.
Para o mercado de negócios brasileiro recuperar posições, será necessário não apenas reformar leis, mas criar uma cultura institucional de facilitação. Países como Chile e Colômbia avançaram justamente por combinar reforma normativa com implementação digital de serviços públicos.
O papel da reforma tributária
A reforma tributária aprovada em anos recentes representa um passo importante, mas ainda parcial. A simplificação do ICMS, ISS e outros tributos promete reduzir o custo de conformidade ao longo do tempo. Porém, o período de transição, que se estende por décadas, mantém a complexidade no curto e médio prazo.
Organizações como CNI (Confederação Nacional da Indústria), CNC (Confederação Nacional do Comércio) e Sebrae já pressionam por uma agenda mais ambiciosa. Elas pedem abertura de empresa em 24 horas, extinção de licenças redundantes, e digitalização de toda a documentação empresarial obrigatória.
O que mais precisa mudar?
Reforma trabalhista complementar é apontada como necessária. O Brasil mantém uma CLT que, em partes, ainda reflete o mundo do trabalho do século XX. Adaptações para trabalho remoto, gig economy, e trabalho por projeto ainda são vistas como insuficientes por empregadores.
Infraestrutura logística também pesa. Um país com rodovias precárias, portos congestionados e aeroportos sobrecarregados aumenta o custo de transporte das empresas, tornando produtos brasileiros menos competitivos globalmente. Isso está intrinsecamente ligado à percepção de complexidade para fazer negócios.
Perspectivas para 2026 e além
Há razões para cautela, mas também para não desprezar o potencial brasileiro. O país tem uma das economias mais dinâmicas do mundo em termos de empreendedorismo: em 2025, foram abertas 4,9 milhões de novas empresas. Isso mostra vitalidade, mesmo diante de obstáculos.
O desafio é transformar essa energia empreendedora em empresas duradouras e escaláveis. Para isso, simplificação regulatória, acesso a crédito, e qualificação de mão de obra são pilares que precisam de atenção simultânea. Sem avanços concretos, o Brasil corre o risco de perpetuar sua posição no topo do ranking das economias mais complexas.
Leia também: Startups brasileiras conquistam investimentos internacionais, Mercado brasileiro: oportunidades em meio à complexidade.
Fontes: Exame – Ranking Global de Complexidade, Seu Dinheiro – Empreendedorismo no Brasil.