Dolce & Gabbana ganha prazo até 2028 após dívida subir a €464,5 milhões

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A Dolce & Gabbana obteve dos bancos credores uma renúncia temporária ao exercício das medidas previstas para a violação de cláusulas financeiras e a suspensão dos testes de covenants até 31 de março de 2028. O acordo reduz o risco de reação imediata dos financiadores, mas não apaga a dívida nem o descumprimento que motivou a renegociação. O grupo ganhou prazo para recompor liquidez e desempenho operacional.
No exercício encerrado em 31 de março de 2026, a receita consolidada caiu 2%, para €1,86 bilhão, enquanto a perda operacional superou €100 milhões. A dívida financeira líquida alcançou €464,5 milhões, ante €379,6 milhões no ano anterior. O aumento foi de €84,9 milhões, ou aproximadamente 22%, em um período no qual o crescimento da divisão de beleza compensou apenas parcialmente a fraqueza do negócio de moda.
Waiver impõe prazos e limite de alavancagem
Covenants são parâmetros contratuais vinculados a financiamentos, como limites de endividamento ou relações entre dívida e resultado operacional. Quando esses indicadores são violados, os bancos podem adotar as medidas previstas no contrato. No caso da Dolce & Gabbana, os credores renunciaram temporariamente a esses recursos e suspenderam a verificação dos parâmetros, criando uma janela para o grupo reorganizar suas finanças.
A contrapartida inclui a conclusão, até 30 de junho de 2027, de operações financeiras extraordinárias capazes de gerar liquidez para atender ao financiamento bancário conjunto. A partir de 31 de março de 2028, e durante o restante do contrato, a relação entre posição financeira líquida e EBITDA deverá ser de no máximo três vezes, medida com base nos resultados consolidados do grupo.
A companhia informou que procurou operadores para estruturar as transações exigidas pela renegociação e que as conversas estavam em estágio avançado. Entre as possibilidades examinadas estava a venda de imóveis em Milão, incluindo o antigo cinema Metropol, onde funcionam instalações corporativas da marca. Até a divulgação das demonstrações, contudo, nenhuma decisão sobre essa venda havia sido formalizada, o que impede tratar a operação como concluída.
Negócio de moda exige leitura separada
Outro conjunto de demonstrações, ligado ao negócio de moda, apresenta números de um perímetro diferente do consolidado. A receita líquida caiu 2%, para €950,5 milhões, e a divisão de moda registrou contração de 8%. O EBITDA passou de resultado negativo de €8,9 milhões para €26,9 milhões, enquanto o prejuízo líquido diminuiu de €204,1 milhões para €170,11 milhões, permanecendo elevado apesar da melhora.
Nesse mesmo perímetro, a posição financeira líquida negativa passou de €511,1 milhões para €677,6 milhões. O financiamento renegociado soma €295,8 milhões, formado por uma linha a prazo de €195,8 milhões e uma linha de crédito rotativo de €100 milhões. Esses €677,6 milhões não devem ser comparados diretamente aos €464,5 milhões do consolidado, porque as cifras pertencem a escopos contábeis diferentes e não representam a mesma base empresarial.
Licença de óculos trouxe €150 milhões
A renegociação bancária ocorreu após outra operação relevante para o caixa. As demonstrações financeiras registraram uma captação de €150 milhões associada à extensão da licença de óculos com a EssilorLuxottica. O comunicado conjunto confirma a parceria mundial de óculos até 2050 para desenvolvimento, produção e distribuição de armações de grau e óculos de sol da marca, mas não informa o valor financeiro do acordo.
Os €150 milhões representam uma entrada relevante diante do aumento anual de €84,9 milhões na dívida financeira líquida consolidada. Ainda assim, a extensão da licença é uma operação específica e não substitui a necessidade de recuperar margens, reduzir perdas e gerar caixa de maneira recorrente. O cumprimento das condições bancárias dependerá da combinação entre as transações extraordinárias previstas e uma melhora sustentável do resultado operacional.
Mercado de luxo cresce de forma desigual
O quadro da Dolce & Gabbana ocorre em um mercado que não enfrenta retração uniforme. O monitor Altagamma Bain de junho projetava, para 2026, crescimento de 2% a 4% nos bens pessoais de luxo e avanço de até 2% no luxo global. As Américas lideravam o mercado, enquanto Europa e Oriente Médio recuavam e a China apresentava recuperação cautelosa. Essa dispersão ajuda a explicar por que a desaceleração das marcas de luxo produz resultados muito diferentes entre empresas.
Para a Dolce & Gabbana, o teste será transformar o prazo concedido pelos bancos em melhora mensurável. O grupo precisa concluir operações de liquidez até 30 de junho de 2027 e limitar a relação entre posição financeira líquida e EBITDA a no máximo três vezes a partir de 31 de março de 2028. A estratégia global das grifes na Ásia continuará relevante, mas disciplina de caixa, margens e dívida determinará o espaço financeiro disponível para competir.