Fraudes com deepfakes crescem 308% no Brasil e elevam risco para empresas

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Avanço de conteúdos sintéticos impulsionados por IA pressiona companhias a reforçarem autenticação, validação de pagamentos e proteção contra roubo de identidade.
O crescimento das fraudes com deepfakes no Brasil está ampliando o alerta para a segurança digital de empresas, instituições financeiras e consumidores. Conteúdos falsos produzidos ou manipulados por inteligência artificial, como imagens, vídeos e áudios, passaram a ser usados em golpes financeiros, anúncios enganosos, roubo de identidade e campanhas de desinformação. Entre 2024 e 2025, a divulgação de conteúdos falsos criados com IA avançou 308% no país, segundo o primeiro Panorama da Desinformação no Brasil, do Observatório Lupa.
Para as empresas, o fenômeno muda uma premissa que durante anos orientou procedimentos internos de segurança: voz, imagem e presença em uma videoconferência deixaram de ser, por si só, evidências suficientes de identidade. A avaliação é de Luiz Claudio, CEO e fundador da LC SEC, consultoria especializada em cibersegurança e compliance com atuação no Brasil e na Europa.
O cenário é especialmente relevante para negócios que dependem de aprovações remotas, movimentações bancárias, troca de informações confidenciais, gestão de acessos e relacionamento digital com clientes. À medida que ferramentas de IA generativa se tornam mais acessíveis, criminosos conseguem reproduzir características visuais e sonoras de executivos, celebridades ou pessoas próximas das vítimas com grau crescente de realismo.
Deepfakes em anúncios e fraudes financeiras entram no radar da ANPD
A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) analisou o tema no Radar Tecnológico nº 6 – Deepfakes, estudo de 163 páginas que discute o uso de conteúdos sintéticos em fraudes e violações de direitos. Entre os pontos de atenção estão anúncios patrocinados e campanhas impulsionadas nas redes sociais que utilizam, sem autorização, imagem ou voz de pessoas conhecidas para dar aparência de legitimidade a ofertas falsas.
Nesse modelo, os golpistas podem criar vídeos ou anúncios simulando recomendações de figuras públicas, promover o material para públicos segmentados e conduzir as vítimas a sites clonados ou plataformas fraudulentas. Nesses ambientes, os usuários são induzidos a fazer pagamentos, compartilhar dados pessoais ou informar credenciais bancárias. O risco não se limita à perda financeira: também envolve danos de reputação, exposição de dados e uso indevido de marcas.
Um dos casos brasileiros destacados pela autoridade envolve deepfakes de celebridades empregados na divulgação de produtos inexistentes. Segundo o relatório citado no material da LC SEC, a apuração sobre a quadrilha responsável identificou movimentação superior a R$ 20 milhões. O formato favorece a escala dos golpes: ainda que o prejuízo individual possa parecer menor em determinadas ocorrências, o volume de vítimas pode produzir ganhos expressivos para os criminosos.
O avanço dessas práticas também ajuda a explicar por que a discussão sobre inteligência artificial passou a ocupar espaço em debates regulatórios, empresariais e eleitorais. No ambiente político, por exemplo, regras relacionadas ao uso de conteúdos sintéticos têm ganhado relevância, tema que aparece no debate sobre deepfake e campanhas analisado pelo TSE.
Voz e vídeo já não bastam para confirmar identidade
Na avaliação de Luiz Claudio, empresas precisam revisar fluxos que concedem confiança automática a uma chamada de vídeo, uma mensagem de voz ou a uma solicitação enviada aparentemente por um gestor. A sofisticação das tecnologias de clonagem torna esse tipo de evidência vulnerável quando não há verificações complementares e independentes.
“O problema é que os processos tradicionais de validação de identidade foram construídos em um cenário em que voz, imagem e presença em uma videoconferência eram sinais relativamente confiáveis. Com a evolução da inteligência artificial, esses elementos podem ser reproduzidos. As empresas precisam criar mecanismos independentes de confirmação para decisões críticas, principalmente quando envolvem dinheiro, acesso a sistemas ou informações sensíveis”, afirma.
Um episódio envolvendo a empresa Arup é citado como exemplo do potencial de impacto desse tipo de ataque. Criminosos utilizaram representações sintéticas de executivos em uma videoconferência e convenceram um funcionário a transferir cerca de US$ 25 milhões. Casos desse porte demonstram que a fraude não depende necessariamente da invasão direta de sistemas: a engenharia social, reforçada por imagem e voz artificiais, pode explorar falhas em processos de aprovação.
No exterior, os indicadores também apontam para o aumento da ameaça. O FBI recebeu 22.364 denúncias relacionadas ao uso de inteligência artificial em fraudes em 2025, com perdas ajustadas superiores a US$ 893,3 milhões. Empresas relataram mais de US$ 30 milhões em perdas relacionadas a golpes de comprometimento de e-mail corporativo que utilizaram algum componente de IA.
Já o Global Cybersecurity Outlook 2026, do Fórum Econômico Mundial, apontou que 73% dos entrevistados foram diretamente afetados ou conheciam alguém atingido por fraude digital em 2025. Outros 87% perceberam aumento das vulnerabilidades associadas à IA. Os números indicam que o desafio não é restrito às grandes corporações: pequenas e médias empresas, muitas vezes com estruturas de controle menos robustas, também estão expostas.
Dupla aprovação e canais independentes reduzem exposição
Para reduzir os riscos de fraudes com deepfakes, a recomendação da LC SEC é substituir a confiança em um único sinal de identidade por um conjunto de controles. Em operações de alto impacto, a empresa pode estabelecer protocolos que exijam checagem por um canal previamente conhecido, como ligação para número cadastrado, confirmação em plataforma corporativa ou contato direto com responsáveis definidos no processo.
“Organizações podem adotar mecanismos de confirmação por canais independentes para operações de maior risco. Solicitações de pagamentos, alterações de dados bancários, compartilhamento de documentos ou concessão de acessos podem exigir uma segunda validação por um canal previamente conhecido, além de dupla aprovação, segregação de funções, autenticação forte e registros de auditoria. A combinação desses controles reduz a possibilidade de que uma única representação sintética seja suficiente para autorizar uma ação crítica”, destaca Luiz Claudio.
Na prática, a dupla aprovação ajuda a evitar que uma solicitação de transferência, alteração de fornecedor ou mudança de conta bancária seja executada somente a partir de uma mensagem urgente atribuída a um executivo. A segregação de funções, por sua vez, distribui responsabilidades e diminui a chance de uma única pessoa concluir uma operação crítica sem revisão. Registros de auditoria tornam o processo rastreável e facilitam a apuração de tentativas de fraude.
O cuidado deve alcançar tanto os controles tecnológicos quanto a cultura da organização. Colaboradores de finanças, recursos humanos, tecnologia, atendimento e compras precisam reconhecer sinais de pressão indevida, urgência atípica e pedidos fora dos fluxos habituais. O treinamento recorrente pode ajudar as equipes a interromper uma ação suspeita antes que ela se transforme em prejuízo financeiro ou vazamento de dados.
Regulação e governança de IA avançam no país
Os Decretos nº 12.975 e nº 12.976, publicados em maio de 2026, ampliaram competências da ANPD sobre governança, transparência, prevenção de fraudes e conteúdos ilícitos nas plataformas. No contexto eleitoral, a Resolução nº 23.755/2026 do TSE estabeleceu regras para conteúdos sintéticos em propaganda, incluindo exigências de identificação e restrições ao uso de imagem e voz de candidatos e pessoas públicas.
Embora regras e mecanismos de moderação sejam parte da resposta, o enfrentamento dos deepfakes depende também de decisões cotidianas dentro das empresas. Isso inclui monitorar o uso indevido de marcas, acompanhar domínios semelhantes aos oficiais, proteger credenciais, rever permissões de acesso e estabelecer planos de resposta para situações em que uma fraude seja identificada.
“A tecnologia de geração de conteúdo sintético evolui rapidamente, e não é realista depender de uma única ferramenta para identificar todos os deepfakes. A proteção precisa estar distribuída entre pessoas, processos e tecnologia. Quando a empresa estabelece regras claras para decisões sensíveis, monitora o uso indevido de sua marca e prepara os colaboradores para questionar solicitações fora dos canais habituais, ela cria mais uma camada de proteção contra esse tipo de fraude”, conclui.
Com mais de 10 anos de atuação, a LC SEC informa já ter executado mais de 150 projetos em cibersegurança e adequação a normas internacionais, incluindo ISO 27001, ISO 42001, SOC2, PCI DSS, NIST, LGPD, GDPR e DORA. O portfólio da empresa reúne soluções de Threat Intelligence baseadas em IA para monitoramento de credenciais expostas, domínios falsos e riscos digitais, além de Pentest, SGSI, Auditoria Interna, Plano Diretor de Segurança, gestão de riscos e programas de conscientização.
A escalada dos deepfakes reforça que a segurança digital deixou de ser apenas uma questão técnica. Para empreendedores e gestores, a capacidade de validar identidades, proteger processos e preparar equipes será cada vez mais determinante para preservar recursos, confiança e continuidade operacional.
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