Com mais de 60 clubes convertidos ao modelo SAF desde 2021 e investimentos que superam R$ 5 bilhões, o futebol brasileiro vive uma transformação estrutural que começa a atrair capital internacional de forma consistente.
A Sociedade Anônima do Futebol (SAF) completou cinco anos como modelo jurídico no Brasil em 2026 com um balanço expressivo: mais de 60 clubes convertidos, dezenas de processos de captação em curso e uma nova geração de gestores profissionais reformulando a administração do futebol brasileiro. O que era experimento em 2021 se tornou o principal veículo de investimento privado no esporte mais popular do país.
A Cimed, farmacêutica mineira que já é um dos maiores patrocinadores do Cruzeiro, está avaliando adquirir a SAF de outro clube de Minas Gerais. O Joinville analisa proposta milionária da Sporteca para se tornar uma SAF. O Uberlândia fechou naming rights com a Uber. O mercado de negócios do futebol nunca esteve tão movimentado.
O mercado em números
Desde a aprovação da Lei 14.193/2021, que criou o modelo SAF, o futebol brasileiro recebeu investimentos estimados em mais de R$ 5 bilhões por meio de aportes diretos em clubes convertidos. Os casos mais emblemáticos incluem o Cruzeiro (John Textor), o Botafogo (John Textor, via Eagle Football), o Cuiabá e o Vasco da Gama, onde a SAF ainda está sendo disputada judicialmente.
Os clubes que adotaram o modelo SAF apresentam, em média, redução de 30% no endividamento operacional nos primeiros dois anos, segundo estudo da FGV Sport publicado em 2025. A profissionalização da gestão e a separação do passivo histórico do clube original são os principais drivers desse resultado.
Como funciona a SAF
A SAF permite que um clube de futebol separe suas operações esportivas em uma sociedade anônima, com governança corporativa, conselho de administração e possibilidade de emissão de ações. O clube original mantém uma participação mínima e o controle simbólico da história e dos títulos, enquanto a SAF opera o futebol de forma empresarial.
A legislação brasileira criou um regime fiscal especial para as SAFs, com tributação reduzida e possibilidade de parcelamento de dívidas fiscais e trabalhistas do clube original em até 120 meses. Esse incentivo foi determinante para atrair investidores que hesitavam diante do passivo histórico dos clubes brasileiros.
Quem está investindo
O perfil dos investidores em SAF é diversificado. Há grupos estrangeiros de private equity (como no caso do Botafogo e do Cruzeiro com John Textor), empresários brasileiros do agronegócio e da indústria (como no Cuiabá e em clubes do interior), e empresas que veem no futebol uma plataforma de marketing (como a Cimed no Cruzeiro).
A Sporteca, empresa paulista que negocia a SAF do Joinville, representa um perfil emergente: o de gestoras especializadas em reestruturação de clubes de médio porte, apostando na valorização do ativo esportivo ao longo do tempo por meio de acesso a séries superiores e desenvolvimento de base.
Oportunidades para empreendedores e investidores
O modelo SAF abre oportunidades além da compra direta de clubes. Empresas de tecnologia esportiva, gestão de arena, marketing de conteúdo, análise de dados e infraestrutura digital têm encontrado no ecossistema das SAFs um mercado em expansão acelerada.
Clubes que antes gerenciavam seus contratos em planilhas agora contratam plataformas de gestão esportiva. Arenas que estavam ociosas fora dos dias de jogo passaram a operar como centros de eventos, restaurantes e lojas. A profissionalização cria demanda por serviços que antes simplesmente não existiam no futebol brasileiro.
O que esperar nos próximos anos
A tendência para os próximos anos é a consolidação do modelo SAF nos clubes de Série A e B, com crescente interesse de fundos internacionais. A Copa do Mundo de 2030, que terá jogos no Brasil, deve acelerar esse processo ao aumentar o apelo do mercado esportivo brasileiro para investidores globais.
O risco está na regulação. O modelo ainda carece de marcos claros sobre governança, conflito de interesses (como o caso Textor, que controla clubes em diferentes países) e proteção dos torcedores como stakeholders. O Congresso Nacional tem projetos em tramitação para endereçar essas lacunas, e o resultado dessas discussões vai moldar o ambiente de negócios do futebol brasileiro pelos próximos 10 anos.
Leia também: O que é SAF no futebol e como funciona, Os clubes brasileiros mais endividados em 2025.
Fonte: MKT Esportivo — Joinville avalia proposta para virar SAF.