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O que é SAF no futebol: guia completo sobre a Sociedade Anônima do Futebol

Reunião executiva com camisa de futebol sobre a mesa representando clube-empresa SAF

A SAF transformou o modelo de gestão do futebol brasileiro, atraindo bilhões em investimentos e forçando clubes tradicionais a repensar sua estrutura jurídica e financeira.

A SAF — Sociedade Anônima do Futebol — é o modelo jurídico que permite que clubes brasileiros operem como empresas privadas, captem investimentos externos, vendam ações e distribuam lucros. Criada pela Lei 14.193/2021, a estrutura separou, pela primeira vez na história do futebol nacional, a atividade esportiva da associação civil que a originou.

Desde sua criação, o modelo atraiu investidores nacionais e internacionais, gerou casos emblemáticos como o Cruzeiro de Ronaldo Fenômeno e o Botafogo de John Textor, e passou a ser acelerado pela Reforma Tributária de 2025, que aumentou a carga fiscal sobre associações civis e ampliou ainda mais a vantagem das SAFs. Em 2026, o Brasileirão Série A conta com oito clubes no modelo.

Neste guia, veja como funciona a SAF, quais são os benefícios fiscais, os riscos do modelo, os casos reais mais relevantes e as tendências para o setor nos próximos anos.

O que é SAF

SAF é a sigla para Sociedade Anônima do Futebol, um tipo especial de sociedade anônima criado exclusivamente para a gestão de clubes de futebol no Brasil. A estrutura é regulada pela Lei 14.193, sancionada em agosto de 2021.

Na prática, o clube associativo — que continua existindo — cria uma empresa separada para administrar suas atividades futebolísticas. Essa empresa pode ter acionistas externos, emitir ações, captar recursos no mercado e distribuir lucros. O clube original mantém uma participação mínima de 49% no capital da SAF.

A SAF não substitui o clube. Ela assume o controle esportivo enquanto a associação permanece como acionista e guardiã do patrimônio histórico e da marca.

Como funciona a SAF

O funcionamento da SAF segue o modelo de uma empresa de capital aberto ou fechado, com algumas particularidades do setor esportivo.

Os principais mecanismos são:

  • Estrutura acionária: o clube associativo detém no mínimo 49% das ações. Os outros 51% podem ser vendidos a investidores privados, fundos ou grupos empresariais.
  • Conselho de administração: responsável pelas decisões estratégicas e financeiras, com regras de governança corporativa mais rígidas do que as associações tradicionais.
  • Regime fiscal simplificado: a SAF recolhe tributos sobre a receita bruta a uma alíquota de 5%, no modelo REIBP (Regime Especial de Imposto sobre a Renda e Contribuição Social).
  • Mecanismo de Estabilização Financeira (MEF): permite que dívidas históricas dos clubes sejam renegociadas em condições especiais, com desconto de juros e multas.
  • Distribuição de lucros: ao contrário das associações civis, as SAFs podem distribuir dividendos aos acionistas.

Histórico: como surgiu a lei

A ideia de transformar clubes de futebol em empresas não é nova no Brasil. O debate começou ainda nos anos 1990, mas sempre esbarrou na resistência de dirigentes e torcidas, que temiam perder o controle dos clubes.

O cenário mudou quando a crise financeira de grandes clubes se tornou insustentável. Em 2021, o Congresso Nacional aprovou a Lei 14.193, elaborada com participação de juristas, economistas e representantes do setor esportivo. A legislação foi sancionada pelo então presidente Jair Bolsonaro em agosto daquele ano.

O primeiro clube a adotar o modelo foi o Cruzeiro, em dezembro de 2021, com a compra de 90% das ações pelo empresário Ronaldo Nazário. O caso se tornou referência no setor e abriu caminho para outros clubes seguirem o mesmo caminho.

Impacto econômico

O impacto financeiro da SAF no futebol brasileiro é significativo e multidimensional.

Para os clubes, o modelo representa acesso a capital que antes era inviável. Dívidas históricas puderam ser renegociadas via MEF, estruturas de governança foram profissionalizadas e a capacidade de investimento em elenco e infraestrutura aumentou de forma considerável.

Para o futebol brasileiro como mercado, a chegada de investidores estrangeiros — como o americano John Textor no Botafogo, o Grupo City no Bahia e a 777 Partners no Vasco — elevou o padrão de contratações e acelerou a internacionalização dos clubes.

A Reforma Tributária aprovada em 2025 intensificou esse processo. A Lei Complementar 214/2025 aumentou a carga tributária sobre associações civis esportivas, que passaram a simular lucro real e recolher 10% em tributos. As SAFs mantiveram o regime simplificado de 5% sobre a receita bruta, ampliando a vantagem fiscal e pressionando clubes como Flamengo, Corinthians e Palmeiras a reconsiderar sua estrutura jurídica.

Dados e números

O mercado das SAFs no Brasil apresenta números expressivos:

  • O Brasileirão Série A de 2026 conta com 8 clubes no modelo SAF entre os 20 participantes, segundo levantamento da Máquina do Esporte.
  • O ranking de valuations da Sports Value (dezembro de 2025) mostrou que os 30 maiores clubes do Brasil somados cresceram 15% em valor de mercado.
  • O Flamengo lidera com o maior valuation do futebol brasileiro, estimado em mais de R$ 4 bilhões.
  • O Cruzeiro dobrou sua receita entre 2022 e 2025, chegando a aproximadamente R$ 700 milhões em faturamento anual após a implementação da SAF.
  • O Botafogo foi o clube brasileiro que mais arrecadou com transferências em 2025, segundo levantamento publicado em maio de 2026.
  • A alíquota fiscal das SAFs é de 5% sobre a receita bruta, contra até 34% sobre o lucro para empresas convencionais.

Exemplos reais

Cruzeiro (Ronaldo Fenômeno, 2021)
O caso mais emblemático. Ronaldo adquiriu 90% da SAF do Cruzeiro por R$ 400 milhões e assumiu um clube que estava na Série B com dívidas bilionárias. Em poucos anos, o clube voltou à elite, profissionalizou a gestão e dobrou seu faturamento. O caso se tornou referência para o modelo no Brasil.

Botafogo (Eagle Football de John Textor, 2022)
O americano John Textor, por meio da Eagle Football, adquiriu 90% das ações da SAF do Botafogo. O clube conquistou o Campeonato Brasileiro de 2024 e avançou na Libertadores. Textor também controla clubes na França (Lyon), Bélgica (RWD Molenbeek) e Portugal (Botafogo de Portugal), numa estratégia de rede global de clubes.

Bahia (Grupo City, 2023)
O City Football Group, que controla o Manchester City e outros oito clubes ao redor do mundo, comprou 90% da SAF do Bahia. O investimento trouxe metodologia de alto nível em análise de dados, scouting e desenvolvimento de atletas para o futebol brasileiro.

Vasco (777 Partners, depois reestruturado)
O Vasco viveu um caso mais turbulento. A 777 Partners enfrentou problemas financeiros globais, gerando um processo de recuperação judicial da SAF. O clube reorganizou sua estrutura acionária, mas o caso evidenciou os riscos de depender de investidores estrangeiros sem solidez comprovada.

Tendências do mercado

O mercado das SAFs no Brasil caminha para uma segunda fase, marcada por três movimentos principais:

1. Pressão da Reforma Tributária
Com a elevação da carga fiscal sobre associações civis, clubes como Flamengo, Corinthians e Palmeiras — que resistiram à migração por terem torcidas poderosas e estruturas consolidadas — passaram a estudar o modelo com mais seriedade em 2026. A expectativa do setor é de novas adesões nos próximos dois anos.

2. Internacionalização dos clubes brasileiros
A lógica de redes globais de clubes — como a do Grupo City e da Eagle Football — deve se expandir. O futebol brasileiro, com sua base de torcedores, produção de atletas e direitos de transmissão crescentes, é visto como ativo estratégico para grupos internacionais.

3. Governança e fair play financeiro
A CBF avança na implementação de regras de fair play financeiro que limitam gastos proporcionais à receita. Clubes com boa governança corporativa — em geral os que adotaram a SAF — tendem a se adaptar melhor a esse ambiente regulatório.

Riscos e críticas

O modelo SAF não é unanimidade e apresenta riscos concretos:

  • Dependência de investidores: casos como o do Vasco mostram que a entrada de capital externo sem due diligence adequada pode criar novos problemas.
  • Distanciamento da torcida: a lógica empresarial nem sempre está alinhada com os interesses históricos e emocionais dos torcedores.
  • Pressão por retorno financeiro: investidores privados esperam retorno. Isso pode gerar conflitos com decisões esportivas de longo prazo.
  • Risco de falência: diferentemente das associações civis, uma SAF pode tecnicamente pedir falência, algo que antes era juridicamente complexo no futebol brasileiro.
  • Concentração de poder: grupos que controlam múltiplos clubes levantam questões sobre conflito de interesses em competições.

Perguntas frequentes sobre SAF

O que é SAF no futebol?
SAF significa Sociedade Anônima do Futebol. É o modelo jurídico criado pela Lei 14.193/2021 que permite que clubes de futebol brasileiros operem como empresas privadas, com acionistas, governança corporativa e regime fiscal diferenciado.

Qual a diferença entre clube associativo e SAF?
O clube associativo é uma entidade sem fins lucrativos, gerida por sócios e diretores eleitos. A SAF é uma empresa privada que pode ter acionistas externos, distribuir lucros e captar recursos no mercado. Na SAF, o clube associativo mantém participação mínima de 49%.

Quais clubes brasileiros são SAF?
Entre os mais conhecidos: Botafogo, Cruzeiro, Vasco, Bahia, Athletico Paranaense e outros. Em 2026, oito dos vinte clubes da Série A do Brasileirão operam no modelo SAF.

A SAF paga menos imposto?
Sim. As SAFs recolhem 5% sobre a receita bruta em regime simplificado. Associações civis, com a Reforma Tributária de 2025, passaram a ter carga tributária mais elevada, ampliando a vantagem fiscal do modelo SAF.

Um clube SAF pode falir?
Tecnicamente sim, como qualquer empresa. Porém a lei prevê mecanismos de proteção, como o Mecanismo de Estabilização Financeira (MEF), que permite renegociar dívidas em condições especiais. A falência de uma SAF não implica necessariamente o fim do clube associativo original.

Quem pode investir em uma SAF?
Pessoas físicas, empresas, fundos de investimento, grupos estrangeiros — qualquer investidor pode adquirir ações de uma SAF, desde que respeitada a participação mínima de 49% do clube associativo.

Quanto vale uma SAF?
O valuation varia conforme receita, elenco, torcida, marca e ativos. O Flamengo, clube mais valioso do Brasil em 2025 segundo a Sports Value, tem valuation estimado em mais de R$ 4 bilhões, embora ainda não tenha migrado para o modelo SAF.

Conclusão

A SAF consolidou-se como o principal instrumento de modernização do futebol brasileiro. Em cinco anos de vigência da lei, o modelo transformou clubes endividados em atraentes para investidores globais, profissionalizou a gestão esportiva e gerou novos parâmetros de governança para o setor.

O próximo ciclo deve ser marcado pela pressão da Reforma Tributária, que favorece as SAFs em relação às associações tradicionais, e pela chegada de novos grupos internacionais interessados no futebol brasileiro como ativo de longo prazo. O debate sobre o equilíbrio entre gestão empresarial e identidade dos clubes seguirá no centro do setor nos próximos anos.

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Fontes: Máquina do Esporte — cinco anos da lei das SAFs, Estadão — por que a Reforma Tributária empurra clubes para a SAF, B3 Bora Investir — ranking dos clubes mais valiosos.